Quando a impunidade é amiga da violencia*
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Os bandidos, os políticos e policiais corruptos que o diretor José Padilha põe em cena, dominam territórios marginalizados e transformados em currais eleitorais, em detrimento de toda uma população, vítima da falta de segurança, que sofre situações traumáticas e, no extremo, perde a própria vida. Tal fato leva essas pessoas ao medo, ao silenciamento e à alienação. No fundo, as questões apresentadas por Tropa de Elite 2 - O inimigo agora é outro constituem o sintoma local de chagas nacionais: a apropriação e o exercício indevido do poder do Estado; o patrimonialismo e a cooptação pelo medo ou por interesse pessoal.
Dez anos depois dos fatos reais de Ônibus 174, o herói Nascimento retorna, não para combater o narcotráfico mas a “banda podre” que continua dominando a coorporação. Na falta de um substituto a sua altura, só ele pode enfrentar esse desafio. O personagem reúne em sua composição a vontade de pessoas que pensam essas questões dentro da própria Polícia Militar, ou de seus antigos quadros; nas universidades; ONGs; além de “uns sete ou oito políticos ficha limpa”, como diz o coronel Nascimento, a certa altura.
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Na cena em que o Nascimento espanca o personagem do político e ex-secretário de segurança corrupto, o espectador demora um pouco a decidir se aplaude ou não. Enquanto o coronel soca o rosto dele - fazendo valer uma justiça idealizada e desejada por muitos contra crimes que o sistema normalmente não pune -, um ou outro na platéia começa a aplaudir, primeiro timidamente. Em seguida são muitos os que aplaudem, numa espécie de catarse coletiva. A demora pode ser atribuída à dúvida diante de um desejo de vingança reprimido ou, talvez, pela inverossimilidade da ficção, confrontada com a experiência vivida.
Será que os espectadores desse filme que denuncia a impunidade que o sistema perpetua, votaram em políticos que compram votos e/ou são apoiados pelos ditos milicianos? Será que o coronel vai se candidatar nas próximas eleições? Ou terá um fim parecido ao do “recalcitrante” Matias, defensor praticamente solitário e obstinado das "coisas do povo" (res publica), daquilo que não é propriedade privada e deve ser mantida por (e para) muitos?
Assistam na tela grande a passagem dessa tropa. Não se assustem tanto com as balas e seu volume de som, no dolby stereo. Se preciso, fechem ou virem os olhos para o lado; afinal se a realidade é insuportável, a vontade é que tudo, na tela, seja ficção. Mas, infelizmente, dentro e fora da sala de cinema, a história ou enredo coincidem às vezes com acontecimentos do nosso dia-a-dia. Isso explica a escolha do nome dos bairros no filme, a saber, Tanque, um que realmente existe e; "Rio das Rochas”, dominado pelo PM e chefe miliciano Rocha, inspirado no bairro Rio das Pedras; ambos localizados na zona oeste carioca.
Após a sessão, vale a pena ficar atento ao que se passa na realidade; algo inevitável aos que vivem nessa cidade, mesmo quando a violência beira o insuportável e desejamos à fuga... Mas, é justamente no momento em que nossa esperança sofre abalos que devemos perseverar para enxergarmos, no fim do túnel, alguém que chega com a coragem, a sede transformadora e a integridade moral de um coronel Nascimento.
Acreditem nele como um homem, e não apenas como o héroi idealizado, único e solitário, capaz de nos proteger desse inferno de violência. Até porque não parece haver outra saída. Que uma tropa de elite verdadeira e imaculada, lado a lado com políticas sociais, façam o seu trabalho, separando o joio do trigo para que a paz e a justiça reinem brevemente em nosso Estado.

