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27 abril 2012

Coleta de óleo residual em restaurantes, lanchonetes e igreja no Riocentro

Ao contrário do que frequentemente ocorre nas residências, o óleo residual de fritura de boa parte dos restaurantes e lanchonetes é coletado para reciclagem. Mas há exceções, como os ecopontos do Projeto Zeróleo, nos condomínios Península, Rio 2, Associação Bosque Marapendi e na Ilha da Gigóia, na Barra da Tijuca; além da Igreja Batista de Jacarepaguá, no Camorim, onde são recolhidos 40 litros semanais. O óleo e a gordura de origem animal e vegetal recolhidos servem para fabricar saponáceos e para produzir biodisel.
As doze lojas pertencentes à cadeia de fast-food Mac Donalds, na região da Barra, Recreio e Jacarepaguá, têm um contrato com a empresa J.W. Dias para recolhimento da gordura hidrogenada e do óleo queimado em suas cozinhas. Na recém-inaugurada loja da Estrada dos Bandeirantes, a coleta gira em torno de 50 litros semanais, quantidade de um galão cheio. Já a rede Habib, que tem um sistema de coleta interno, recolhe cerca de oito litros semanais na filial da Taquara.
Próximo dali, a Frango Vila, uma loja de disque-entrega de refeições, tem uma máquina de assar frangos (vulgarmente conhecida por “televisão de cachorro”) e cede, quinzenalmente, a uma empresa de coleta e reciclagem um galão do óleo escoado para a bandeja da máquina, além do queimado nas frigideiras para fritar batatas e outras carnes, por sacos de pano e desinfetante, ou cloro.
A cada litro de óleo despejado no esgoto, um milhão de litros de água.
Não é apenas a permuta por produtos de limpeza que move os comerciantes. Mãe do dono do bar e lanchonete Cia. das Massas, na Curicica, Dona Neiva Elizete é uma entusiasta da iniciativa e elogia a cooperação dos comerciantes com as empresas de coleta e reciclagem:
- Para gente é ótimo porque não jogamos o óleo na pia. Coleta de óleo e reciclagem foi a melhor coisa que inventaram. E ainda ganhamos um agrado. Eles nos dão cloro e desinfetante.
Com um forte movimento de trabalhadores da construção civil durante os dias de semana, e também nos finais de semana com fregueses da vizinhança que chegam cedo e ficam batendo papo até à noite, são coletados ali de um a dois galões, mensalmente.


Frangueira com garrafa coletora, embaixo, à direita.

No restaurante Vovô Tino, localizado no Camorim, a coleta de pouco mais de um galão é feita pela empresa Rio Óleo, semanalmente. Já na pizzaria e restaurante Tia Graça, o Disk Óleo Vegetal recolhe dois galões a cada quinzena.


24 abril 2012

Câmara Comunitária da Barra da Tijuca oferece cursos de capacitação

A Câmara Comunitária da Barra da Tijuca oferece cursos de capacitação gratuitos com os objetivos de aprimorar a qualidade de mão-de-obra e elevar a auto estima dos funcionários de condomínios e associações afiliados.

Cada condominío poderá inscrever até quatro funcionários em cada curso. As inscrições deverão ser feitas com antecedência de 20 dias da data de início através do fax 3325-2323.
A CCBT fica na Av. Mal. Henrique Lott, 135, entre o Barra Square e o Esplanada da Barra, em frente ao condomínio no Parque das Rosas.  Os telefones de lá são 2431-5071, 2432-8232 ou 3325-2910.

Abaixo, o calendário de cursos deste ano.

Calendário de cursos - 2012


26 e 27 de ABRIL

NOÇÕES DE SEGURANÇA

30 e 31 de MAIO

SEGURANÇA DO TRABALHO
 
27 e 28 de JUNHO

COMBATE A INCÊNDIO

25 e 26 de JULHO

CONSERVAÇÃO PREDIAL

29 e 30 de AGOSTO

RECICLAGEM

26 e 27 de SETEMBRO

ADMINISTRAÇÃO GERAL

24 e 25 de OUTUBRO

PRIMEIROS SOCORROS

28 e 29 de NOVEMBRO

MANUTENÇÃO DE JARDIM



Sede da Câmara Comunitária da Barra

Outras informações no site da CCBT.

20 abril 2012

Entrevista com Antônio Carlos Costa, coordenador do Rio de Paz

                                                                                                                                     Por Samuel Averbug

Em 1992, Antônio Carlos Costa plantou a Igreja Presbiteriana da Barra, no Rio de Janeiro, onde é pastor. No ano seguinte estava entre os que fundaram a Igreja Presbiteriana de Icaraí ("Betaninha"), em Niterói. Paralelamente à inauguração dessas igrejas, participou da criação da Escola de Pastores de Niterói e da Escola Teológica Reformada, que funciona nas dependências da Igreja da Barra da Tijuca. O pastor foi um dos pioneiros do bodyboard no Brasil, modalidade praticada pelos seus dois filhos.

Carioca nascido em 13 de junho de 1962, ele é casado com Adriany, que considera uma excelente companheira e esposa. Graduou-se e fez mestrado em Teologia e escreve sua tese de doutorado sobre Jonathan Edwards para a Faculté Libre de Théologie Réformée, na França.  

Antônio Carlos tem surpreendendo com as manifestações de rua pacíficas e criativas do movimento que coordena, o Rio de Paz. Ele tem mobilizado a população, convocando-a a sair da passividade e dar respostas à mais recente onda de violência na cidade. Com isso pretende valorizar a democracia  e estimular o exercício da cidadania em tempos de medo. “Entre o direito à liberdade e o direito à vida, muita gente está escolhendo o segundo, devido à falta de tradição  aqui daquilo que os franceses chamam de poder das ruas”, diz ele.

Em seu caminho de combate à violência pelo poder do Evangelho, teve como episódio exemplar a experiência vivenciada num assalto. Cinco meninos, após tirar seus pertences, ouviram uma “palavra bíblica” antes de irem embora. Aquilo que estavam fazendo, disse ele, era um pecado que teria repercussão não só aqui nesta vida, mas para sempre, inclusive depois da morte. Assustados com a mensagem do pastor, os meninos jogaram fora suas facas e devolveram-lhe tudo. Desta forma, desarmou aqueles jovens e, quem sabe, tenha dado um rumo diferente, menos violento, àquelas vidas. 

Diante de todos esses temores e desafios sociais, esse pastor se lança como condutor de novas ações; muitas, inclusive, que unem públicos distintos, como carnavalescos, torcedores de futebol e evangélicos de variadas denominações. O Rio de Janeiro é hoje uma cidade enlutada. O que fazer?






Que resposta você espera da população aos atos públicos do Rio de Paz? Enquanto uma parcela ainda acredita em manifestações, no “poder da rua” para combater o que você chama “letalidade obscena”, outra parece já estar descrente e cansada, apesar de vítima da violência no cotidiano.

ANTÔNIO CARLOS – Eu posso entender o ceticismo de muitos. Em primeiro lugar, não há uma cultura de participação democrática no Brasil. Em segundo, as pessoas são muito descrentes com relação a ações pacíficas e dentro dos parâmetros estabelecidos pelo estado de direito. Disseram-nos que o manifesto deveria ser mais contundente, mais duro. Mas realmente estamos querendo fazer as coisas dentro dos parâmetros da lei, porque somos cristãos. O texto bíblico de Romanos 13, para nós, é um absoluto ético do cristianismo (devemos nos submeter às autoridades). E tem outra coisa: apesar das imperfeições da nossa democracia, podemos dizer que existe um Estado brasileiro. Temos nossas leis estabelecidas e todo um caminho, igualmente formado, mediante o qual a população pode expressar o seu ponto de vista, a sua indignação, a sua revolta. Estamos querendo utilizar esses caminhos que, muitas vezes, o povo brasileiro desconhece.

 Outro ponto é o fato de que, em geral, as pessoas que dizem que essas ações são ineficazes revelam um nível de indiferença muito grande. Penso que elas não acreditam porque estão mais preocupadas com seus interesses pessoais do que com o bem-estar do seu semelhante. Não surgiu ainda no nosso país um movimento que ajudasse a organizar a sociedade civil em torno de uma proposta exeqüível, factível, me perdoe dizer com imodéstia, como o Rio de Paz, que tem uma proposta e vai além, pois vamos entregar um manifesto ao governador do Estado e acompanhar de perto aquilo que ele vai fazer com nosso protesto. 



Você diria que o Estado não tem cumprido o seu papel?

ANTÔNIO CARLOS – É evidente que não. Vivemos um momento de ameaça grave à democracia brasileira porque as pessoas estão chegando à conclusão de que a democracia não resolve. Alguns chegam ao ponto de dizer que somente o regime ditatorial resolveria, porque o brasileiro não consegue viver de modo ordeiro a não ser por essa via, o que eu discordo inteiramente. Só é capaz de apoiar uma coisa como essa aquele que não conhece o horror de se viver num ambiente sem liberdade de expressão, num contexto em que a imprensa não consegue fazer o seu trabalho. 

Então, penso que a situação é tão grave que estamos vivendo, de certa forma, uma ruptura do contrato social no seu quesito mais elementar, que é a preservação da vida: de um lado o direito e o desejo de ser livre, do outro, o direito e o desejo de viver. Só que não tem sentido você falar no direito de liberdade sem o direito à vida. Logo, é uma ameaça à democracia porque as pessoas, entre a vida e a liberdade, vão optar pela vida, o que é trágico, pois devemos lutar por ambas as coisas. Tivemos, no Rio de Janeiro, mil homicídios em apenas dois meses e meio: é o que chamo de letalidade obscena.


Além da participação em atos públicos, como o carioca pode “resistir” à barbárie e ao desrespeito dos criminosos ao direito à vida? 

ANTÔNIO CARLOS – Como teólogo, minhas preocupações sempre foram de natureza teológica e metafísica, e, de uns tempos para cá, me envolvi, por conta do estabelecimento dessa barbárie no nosso estado, com todos esses problemas sociais. Mas a resposta está com as autoridades públicas, com os especialistas em segurança pública. Por isso, estamos realizando um fórum de segurança pública, na Firjan, no qual as autoridades vão dizer o que é necessário para baixar a taxa de homicídios e, com base no material colhido, vamos apresentar um manifesto.

O que a sociedade civil pode fazer é emprestar força para o poder público, pois acredito que, hoje, mesmo um governador bem intencionado no Brasil tem uma liberdade de ação restrita em função da corrupção endêmica institucional. As decisões que o chefe de governo deve tomar, que sabe que precisa tomar, muitas vezes não são tomadas por causa do desinteresse de pessoas que estão à frente das instituições. A sociedade civil deve emprestar força ao poder público para que, mediante este respaldo popular adicional, ele possa ter coragem de tomar as decisões que precisam ser tomadas.

A corrupção é o grande entrave, ao lado das injustiças sociais, da falta de educação e de uma justa distribuição de renda. Ou seja, quem tem a incumbência de aplicar a lei, em parte, está envolvido com o crime. Nesse fórum, o Estado é que vai dar respostas para a gente. Muitas vezes, a Igreja erra por entrar em áreas para as quais não tem competência, oferecendo respostas que já foram provadas como ultrapassadas. Eu, por exemplo, um teólogo, tenho respostas gerais, a começar pela ausência de Cristo no coração. Agora, respostas específicas para o problema, o que precisa ser feito em termos de política, de ação pública, é só para quem se dedicou a isso a vida toda. 

Homenagem do Rio de Paz
PM: " Uniformes Manchados"
Praia de Copacabana, 14/05/2009


Por que, então, você começou a se interessar por esse assunto?

ANTÔNIO CARLOS – Vou te contar uma experiência. Eu estava no culto da minha igreja num domingo e senti uma vontade de orar, pedindo a Deus por proteção, porque sei que não é fácil se envolver em questões dessa natureza sem correr riscos de vida. E eu falei: “Deus, homens no passado fizeram a tua obra, certos de que o Senhor haveria de guardá-los e, por isso, foram em frente. Então, se aprouver a ti, me dá uma segurança...” Veio ao meu coração a seguinte coisa: “Se eu te dissesse que haveria de te proteger, você faria o que você está fazendo?”. Eu disse: “Certamente, Senhor”. “Agora, se eu te dissesse que não haveria de lhe garantir proteção, você faria o que está fazendo?”. Aí eu disse: “Certo que faria, porque não estou fazendo por causa da garantia de salvo-conduto, mas por causa da consciência do compromisso que tenho com o Evangelho”. 

Foi o Evangelho que me colocou esse tipo de questão, o Evangelho que me leva a crer que a vida humana é preciosa aos olhos do Criador e que ela não pode ser “barateada”, conforme está acontecendo no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro. Confesso que, paralelo a isso, há um desejo de ver o valor da vida ser preservado, de criarmos uma cultura de respeito à santidade da vida humana no nosso estado. 

Tenho também o sonho de ver restaurado o respeito da Igreja perante a opinião pública. Nós perdemos o crédito, as pessoas nos têm como alienados. E a minha esperança é que um dia seja contada a história de que quem colocou aquelas cruzes nas areias de Copacabana [em 17/03] foram servos de Deus, que 90 por cento das pessoas que se deitaram no calçadão de Copacabana [na manhã do último Sábado de Aleluia] eram membros de igrejas evangélicas do Grande Rio. Quero que corra pela nação a notícia de que somos um povo interessado na salvação integral do homem, no perdão de pecados e na redenção do seu ser no que tange às estruturas de opressão que infelicitam a vida de tantos. 

19ª Manifestação do Rio de Paz
"Os 4.000 que estão para morrer"
Copacabana (RJ), 27/06/2008


Como são idealizados os atos do movimento? E como foi o episódio de vocês durante o desfile do Bola Preta no carnaval e com a torcida no Maracanã?

ANTÔNIO CARLOS – Ia ter uma manifestação nossa no mesmo dia e horário em que o Cordão do Bola Preta ia dar início ao carnaval no Rio de Janeiro. Um jornalista me perguntou se eu não estava preocupado com esse “encontro” e eu respondi que estava absolutamente certo de que eles iam respeitar nosso ato. Quando eles chegaram, não houve inicialmente um silêncio, o que me fez ir na direção do bloco para pedir ao dirigente deles que respeitasse o nosso movimento e fizesse silêncio. Fiquei ao lado dele e falei: “Olha, rapaz, esta semana houve uma morte que causou comoção popular. A cidade está sob o impacto desse homicídio, dessa morte cruel, e eu penso que nós poderíamos guardar um minuto de silêncio em respeito aos parentes da vítima [o menino João Hélio]”. Eles fizeram o minuto de silêncio e depois o rapaz disse para a multidão: “Em 89 anos da história do bloco, nós nunca paramos de cantar e sambar para fazer um minuto de silêncio”. Em seguida, me passou o microfone e eu, pastor, vim “conduzindo” o Cordão do Bola Preta, dizendo para as pessoas voltarem um dia para a Cinelândia, não para sambar, mas juntas lutarem por justiça e paz na nossa terra. 

E na torcida do Botafogo foi a mesma coisa. Eu [botafoguense] e um rapaz da nossa igreja, fomos para a torcida principal, a Fúria Jovem, e perguntei: “Quem é o chefe disso aqui?” Responderam: “Ele tá lá em cima”. De repente, me vejo no meio da turma que comanda o espetáculo e os cantos de guerra, dizendo: “Por favor, tenho um negócio importante para falar: esta semana morreu uma criança, uma morte estúpida, e eu penso que é da vontade de Deus que hoje a gente esteja aqui não apenas para torcer, mas para clamar por paz na nossa cidade”. Antes de chegarmos, eles estavam cantando as músicas mais duras, incitando a torcida adversária. Quando terminei, a torcida inteira bateu palmas. Depois, voltei para o meu lugar e eles começaram a gritar “justiça, justiça, justiça!”. 

Durante trinta segundos, a torcida clamou por justiça. Eu freqüento o Maracanã desde a década de 60 e foi a primeira vez que vi uma coisa dessas, o que leva a crer que se houver uma aproximação do povo com uma linguagem clara e apaixonada, pode ser que muita gente se envolva.

A manifestação no Sábado de Aleluia correspondeu às expectativas? 

 ANTÔNIO CARLOS – Foi um milagre. Imagina numa manhã de feriado, com sol, você fazer um convite para que mil pessoas estejam na praia de Copacabana, não para mergulharem no mar, mas para se deitarem no calçadão durante trinta minutos, sob sol escaldante, e protestar contra o número absurdo de homicídios na cidade. Conseguimos reunir essas mil pessoas e levamos para o Brasil e para o mundo essa imagem da barbárie, protestando de modo inteligente e pacífico. É um tipo de protesto que, embora não envolva muita gente, consegue emitir uma imagem muito contundente, que choca, que desperta. Uma coisa mais voltada para a ação inteligente do que propriamente para uma multidão presente ao evento. A idéia é atingir, pela imagem veiculada nos órgãos de comunicação, os lares do mundo inteiro.

Foi o que aconteceu no evento das cruzes na areia, que apareceu no mundo inteiro e foi abertura do Jornal Nacional. Todos os nossos eventos apareceram nos telejornais; ganhamos capa nos grandes jornais do país. Eu chamaria isso de “Marcha com Jesus”, que é tão importante quanto a “Marcha para Jesus”. Que é você andar por lugares onde Jesus andaria se estivesse em nosso meio.



12ª Manifestação - São Paulo pela Paz
Bosque da Lamentação
Minhocão (SP), 01/07/2007



Como presbiteriano de linha calvinista, como analisa o panorama nacional das igrejas?

ANTÔNIO CARLOS – Temos que fazer um recorte. Há igrejas verdadeiras e saudáveis. Por outro lado, encontramos igrejas verdadeiras mas com teologia fraca e com muita imaturidade. E há um grupo que não é nem cristão, mas que está vendendo salvação, perdão e cura. Devemos fugir de dois pecados: não devemos ter comunhão com pessoas que não são fiéis às Escrituras e desfiguram a beleza do Evangelho, e não devemos romper com igrejas com as quais discordamos em pontos periféricos, não essenciais. Isso não é fácil, pois há um limbo que é de difícil discernimento.

Devemos, então, seguir o que os reformadores disseram: sempre há igreja verdadeira onde encontramos a correta ministração dos sacramentos, a verdadeira pregação da Palavra e o exercício da disciplina. Precisamos urgentemente de uma reforma no púlpito: pastores mais cultos, de vida mais santa e mais cheios do Espírito Santo. 


* Publicado originalmente na revista Enfoque Gospel, em maio de 2007.

03 abril 2012

O Grande Chefe Seattle

Em 1854, o presidente dos Estados Unidos quis comprar uma grande área de terra dos índios peles-vermelhas, prometendo uma reserva para que nela eles pudessem viver. A resposta do Cacique Seattle é tida como uma profunda declaração de amor ao Meio Ambiente, brotada do coração puro e simples de um índio cheio de reconhecimento à Natureza por tudo de bom que ela dá ao homem.

 Chefe Seattle (1780-1866)
“O grande chefe de Washington mandou dizer que deseja comprar nossa terra, o grande chefe nos assegurou também de sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não precisa de nossa amizade.

Vamos, então, pensar em sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O grande chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle diz com a mesma certeza que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano.

Minhas palavras são como as estrelas, elas não empalidecem.

Como é possível comprar ou vender o céu, o calor da terra? Esta ideia nos é estranha. Se não somos dono do frescor do ar e do resplendor da água, como então é possível comprá-los? Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo, cada ramo reluzente do pinheiro, cada punhado de areia da praia, a penumbra na densa floresta, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência de meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho.

Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela faz parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia, são nossos irmãos. Os picos rochosos, os sulcos úmidos nas campinas, o calor que emana do corpo de um potro, e o homem - todos pertencem à mesma família.

Portanto, quando o grande chefe de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele pede muito de nós. O grande chefe diz que irá nos reservar um lugar onde possamos viver satisfeitos; que ele será nosso pai e nós seus filhos. Portanto, vamos considerar a sua oferta de comprar nossa terra. Mas não vai ser fácil, porque esta terra é para nós sagrada.

Esta água brilhante que corre nos riachos e rios não é apenas água, e sim o sangue de nossos ancestrais. Se lhes vendermos a terra, terás de se lembrar de que ela é sagrada, e ensinar a seus filhos que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e recordações da vida de meu povo. O rumorejar d'água é a voz de nossos ancestrais. Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossos filhos. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem se lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também. Portanto, devem dar aos rios a afabilidade que dariam a um irmão.

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele, um lote de terra é igual a outro, pois ele é um forasteiro que chega à calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e depois de conquistá-la, ele vai embora. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados, e não se importa. Tira da terra aquilo que seria herança de seus filhos e não se importa. 


Esquecem a sepultura de seus pais e os direitos de seus filhos. Trata sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelhas ou enfeites coloridos. Sua voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto.

Não sei, nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os nossos olhos. Talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e não compreende.

Não há sequer lugar tranquilo nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o bater das asas de um inseto. Mas talvez seja porque sou um selvagem que não compreende; o barulho parece apenas insultar os ouvidos. E o que resta da vida se um homem não pode ouvir a voz solitária de uma ave ou, de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo? Sou um homem vermelho e não compreendo. O índio prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar a superfície de um lago e o cheiro do próprio vento, purificado pela chuva do meio-dia ou perfumado pelos pinheiros.

O ar é precioso para o homem vermelho, porque todas as criaturas compartilham o mesmo sopro - os animais, as árvores, o homem, todos compartilham o mesmo ar. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, é insensível ao mau cheiro. Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve se lembrar de que o ar é precioso para nós, que o ar reparte seu espírito com toda a vida que sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe o seu último suspiro. E se lhes vendermos nossa terra, vocês devem mantê-la intacta, como um santuário, como um lugar onde o próprio homem branco possa ir saborear o vento adoçado com a fragrância das flores campestres.

Portanto, vamos considerar tua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não posso aceitar que possa ser de outro jeito. Tenho visto milhares de búfalos [bisões] apodrecendo nas planícies, abandonados pelo homem branco que os abate a tiros disparados de um trem em movimento. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo que sacrificamos apenas para o sustento de nossa vida.

O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabarem, o homem morrerá devido a uma grande solidão de espírito. Pois o que acontece aos animais, em pouco tempo, acontece com o homem. Tudo está interligado.

Vocês devem ensinar a seus filhos que o solo debaixo de seus pés são as cinzas de nossos antepassados; para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo. Ensinem a seus filhos o que ensinamos aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo o que fere a terra, fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios.

De uma coisa sabemos. A terra não pertence ao homem; é o homem que pertence à terra. Disto temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está interligado. Tudo que se fizermos de mal à terra, recairá sobre os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um de seus fios. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará.

Os nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbiram sob o peso da vergonha. E depois de derrotados passam o tempo sem fazer nada, envenenando seus corpos com alimentos açucarados e bebidas alcoólicas. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias - não somos muitos. Mais algumas horas, mesmo uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que têm vagueado em pequenos grupos pelos bosques sobrará para chorar sobre os túmulos de um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.

Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. Podemos ser irmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa estamos certos, e o homem branco perceberá um dia: nosso Deus é o mesmo Deus. Vocês podem achar que O possuem, do mesmo modo que desejam possuir nossa terra; mas não é possível. Ele é o Deus de todos os homens. Sua compaixão é igual para com o homem vermelho e o homem branco. A terra lhe é preciosa, e feri-la é desprezar o seu criador. Os brancos também passarão; talvez mais cedo que todas as outras raças. Se continuarem contaminando onde dormem, uma noite morrerão sufocados pelos próprios dejetos.

Porém, ao perecerem, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e que, por alguma razão especial, lhes deu o domínio sobre esta terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é para nós um mistério, pois não podemos imaginar como será quando todos os búfalos forem exterminados, os cavalos bravios domados, as brenhas das florestas carregadas do odor de muitos homens e a visão das velhas colinas obstruídas por fios que falam. Onde ficará o emaranhado da mata? Desaparecerá. Onde estará a águia? Desaparecerá. Restará apenas dar adeus à andorinha e à caça; será o fim da vida e o começo da luta pela sobrevivência.

Compreenderíamos, talvez, se conhecêssemos com o que sonha o homem branco, se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, qual a visão de futuro que nutre suas mentes para que possam formar desejos para o dia de amanhã. Somos, porém, selvagens. Os sonhos do homem branco são para nós obscuros, e por serem obscuros, temos de escolher nosso próprio caminho. Se consentirmos, será para garantir as reservas que nos prometestes. Lá, talvez, possamos viver o nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará vivendo nestas florestas e praias, porque nós a amamos como ama um recém-nascido o bater do coração de sua mãe.

Se lhes vendermos a nossa terra, ame-a como nós a amamos. Proteja-a como nós a protegemos. Nunca se esqueçam de como era esta terra quando dela se apossaram. E com toda a sua força, todo o seu poder e todo o seu coração - conserva-a para seus filhos e ame-a como Deus ama a todos. De uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus, esta terra é por ele amada. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.”