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27 novembro 2010

Quando a impunidade é amiga da violencia*

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A larga pretensão crítica de Tropa de Elite 2 em atingir as diversas mazelas atuais da segurança pública no Estado do Rio pode colocar em cheque o entendimento do filme pelas platéias de outros estados do país. Mas o risco faz parte do processo. Realizar um filme de ficção com “possíveis coincidências com a realidade” é diferente de fazer História. Ao assistirem ao filme, alguns cariocas vítimas da violência identificarão no meio dos personagens os seus algozes, suas ramificações tentaculares, seus esquemas de opressão e corrupção, tudo isso ali recriado e exposto de modo junto e misturado.
Os bandidos, os políticos e policiais corruptos que o diretor José Padilha põe em cena, dominam territórios marginalizados e transformados em currais eleitorais, em detrimento de toda uma população, vítima da falta de segurança, que sofre situações traumáticas e, no extremo, perde a própria vida. Tal fato leva essas pessoas ao medo, ao silenciamento e à alienação. No fundo, as questões apresentadas por Tropa de Elite 2 - O inimigo agora é outro constituem o sintoma local de chagas nacionais: a apropriação e o exercício indevido do poder do Estado; o patrimonialismo e a cooptação pelo medo ou por interesse pessoal.
Não há neste filme as imagens dramáticas e impactantes do documentário Ônibus 174, do mesmo diretor, que relata o momento de revolta de um morador de rua vitimado pela miséria e drogas. O sequestro que transformou o Jardim Botânico (RJ) numa praça de guerra – policiais do Batalhão de Operações Especiais mataram o sequestrador (“Missão dada é missão cumprida”, diz o tenente-coronel Nascimento) mas a operação resultou numa vítima inocente (“Tropa de Elite, pega um pega geral!”) – teve transmissão ao vivo pela TV e deu visibilidade à insegurança e a uma certa violência que começa na periferia da cidade e atinge toda a população.
Dez anos depois dos fatos reais de Ônibus 174, o herói Nascimento retorna, não para combater o narcotráfico mas a “banda podre” que continua dominando a coorporação. Na falta de um substituto a sua altura, só ele pode enfrentar esse desafio. O personagem reúne em sua composição a vontade de pessoas que pensam essas questões dentro da própria Polícia Militar, ou de seus antigos quadros; nas universidades; ONGs; além de “uns sete ou oito políticos ficha limpa”, como diz o coronel Nascimento, a certa altura.
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O possível substituto de Nascimento, Matias (que obtém êxito numa rebelião de presídio ao “matar o bandido para salvar o refém”, ao contrário do que ocorreu no sequestro de 174), representa a “banda limpa”, enquanto o caricato Azevedo, que também é um caveira (oriundo da “tropa de elite” do BOPE) pertence à banda podre da corporação. Associado ao vilão Rocha, chefe da milícia, Azevedo não consegue emergir das poças do sangue derramado nos territórios que eram dos traficantes. Se, na primeira versão, Matias denunciava os viciados como responsáveis pela perpetuação da violência do tráfico ao demandarem o produto de um negócio ilícito, agora ele trava um novo combate, contra um inimigointerno, fazendo de tudo para manter-se íntegro e honrar a farda. 

Na cena em que o Nascimento espanca o personagem do político e ex-secretário de segurança corrupto, o espectador demora um pouco a decidir se aplaude ou não. Enquanto o coronel soca o rosto dele - fazendo valer uma justiça idealizada e desejada por muitos contra crimes que o sistema normalmente não pune -, um ou outro na platéia começa a aplaudir, primeiro timidamente. Em seguida são muitos os que aplaudem, numa espécie de catarse coletiva. A demora pode ser atribuída à dúvida diante de um desejo de vingança reprimido ou, talvez, pela inverossimilidade da ficção, confrontada com a experiência vivida.
Será que os espectadores desse filme que denuncia a impunidade que o sistema perpetua, votaram em políticos que compram votos e/ou são apoiados pelos ditos milicianos? Será que o coronel vai se candidatar nas próximas eleições? Ou terá um fim parecido ao do “recalcitrante” Matias, defensor praticamente solitário e obstinado das "coisas do povo" (res publica), daquilo que não é propriedade privada e deve ser mantida por (e para) muitos? 
Assistam na tela grande a passagem dessa tropa. Não se assustem tanto com as balas e seu volume de som, no dolby stereo. Se preciso, fechem ou virem os olhos para o lado; afinal se a realidade é insuportável, a vontade é que tudo, na tela, seja ficção. Mas, infelizmente, dentro e fora da sala de cinema, a história ou enredo coincidem às vezes com acontecimentos do nosso dia-a-dia. Isso explica a escolha do nome dos bairros no filme, a saber, Tanque, um que realmente existe e; "Rio das Rochas”, dominado pelo PM e chefe miliciano Rocha, inspirado no bairro Rio das Pedras; ambos localizados na zona oeste carioca.
Após a sessão, vale a pena ficar atento ao que se passa na realidade; algo inevitável aos que vivem nessa cidade, mesmo quando a violência beira o insuportável e  desejamos à fuga... Mas, é justamente no momento em que nossa esperança sofre abalos que devemos  perseverar para enxergarmos, no fim do túnel, alguém que chega com a coragem, a sede transformadora e a integridade moral de um coronel Nascimento. 
Acreditem nele como  um homem, e não apenas como o héroi idealizado, único e solitário, capaz de nos  proteger desse inferno de violência. Até porque não parece haver outra saída. Que uma tropa de elite verdadeira e imaculada, lado a lado com políticas sociais, façam o seu trabalho, separando o joio do trigo  para  que a paz  e a justiça reinem brevemente em nosso Estado


(*) Resenha publicada nos jornais Terceiro Tempo e Caminho das Vargens, Recreio e Barra, e no portal Vargens News, em 2010. 

Um comentário:

  1. De: Leonardo Soares Quirino da Silva
    Para: Samuel Averbug ______________________________________

    Samuca,

    Gostei de sua análise do filme. Acho até que esse caráter docudrama é a razão do sucesso. Só assim temos uma realidade brasileira tratada novamente na telona. Depois, o Nascimento encarna a vontade da grande maioria da população de dar um basta. Só que a vida não é cinema.

    Daí, não é que discorde de sua conclusão, mas essa estória de ficar esperando um cpt Nascimento que venha na 13ª para nos redimir é mt ruim. Nós é que temos que nos salvar. Faltam estórias em que a população se une e consegue o quer. Seria preciso procurá-las na nossa História (temo, porém, que as pessoas hj não as creiam possíveis).

    Esses casos são importantes para construir outro tipo de cidadania. Tudo bem que na democracia representativa deleguemos aos políticos a atividade de legislar e executar as leis, mas isso não nos dispensa de acompanhar o que estão fazendo e de não votar naqueles que trairam nossa confiança. A impressão que dá é que democracia é só votar e ser votado, enquanto é muito mais que isso.

    Abs,
    Léo

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