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05 julho 2011

Abuso de vitaminas na academia


A vontade de frequentadores de academia de ginástica em ver o resultado de horas de malhação nos aparelhos traduzirem-se em músculos, leva alguns deles ao uso e abuso dos suplementos vitamínicos. Tanto para atletas de alto rendimento quanto malhadores comuns, o melhor seria uma dieta balanceada; mas nem sempre isso é possível para os frequentadores de academia com uma rotina intensa de trabalho. 

Atleta de academia sem pretensões a fisiculturista, o jovem estudante de História Patrick Corrêa utilizou hipercalóricos por sua própria conta e risco antes de resolver consultar uma nutricionista. Ela, então, o desaconselhou a usar estes suplementos compostos proteínas, aminoácidos, carboidratos de alto índice glicêmico, vitaminas e minerais. Com este orientação, Patrick passou a repor o gasto calórico dispendido nos exercícios com ingestão de alimentos como leites achocolatados à base de soja.

A fisioterapeuta Simone Machado faz natação duas vezes por semana e vai à academia para manter-se em forma. Ela consultou seu professor de educação física , que estuda Nutrição, sobre que tipo de dieta deveria adotar. Sondou, inclusive, a possibilidade de fazer uso das vitaminas. Baseado no perfil de Simone, Leandro de Carvalho recomendou refeições de três em três horas. Embora o ideal seja seguir uma dieta personalizada por uma nutricionista, barra de cereal, iogurte e frutas são exemplos de ingestões intermediárias, que podem ser feitas entre as três principais refeições, para repor o gasto energético dispendido nas academias. 

Uma portaria do Ministério da Saúde faz uma disinção entre os Recursos Ergogênicos, aqueles especialmente formulados e elaborados para praticantes de atividade física, e os Suplementos Vitamínicos e/ou Minerais, alimentos que servem para completar com nutrientes a dieta diária de uma pessoa, desde que não ultrapassem as 100% da Ingestão Diária Recomendada (acima dessa dosagem são considerados medicamentos).


Essa distinção, ratificada pelo Conselho Regional de Nutrição, é o critério orientador dos nutricionistas na hora de indicar os suplementos, apenas adotado como uma estratégia alimentar para os atletas. O professor Leandro comenta que os “atletas do dia-a-dia” buscam esses recursos para ter maior disposição, energia e capacitação para malhar. Mas ele ressalta que os malhadores não devem ser confundidos com os atletas de alto rendimento que podem chegar a ter um gasto energético de quinze mil calorias, como o nadador olímpico Michael Phelps. Auqeles não se contentam apenas com os benefícios cárdio-vasculares que os exercícios aeróbicos proporcionam e querem modelar seu corpo: “Eles buscam um crescimento rápido da massa muscular, sem o tempo necessário para isso e nem sempre respeitando os limites dos seus corpos”. 

Alguns suplementos protéicos como a albumina (proteína contida na clara do ovo), a creatina, a caseína, o Whey Protein e o aminoácido BCAA, são consumidos por frequentadores de academia sem nenhuma recomendação ou orientação médica.  Leandro comenta que o rim é afetado quando se consome proteínas acima do limite. Mesmo elas sendo o principal elemento para a formação da massa muscular, não devem ultrapassar 15 % do valor energético total diário consumido pelo organismo. Por ignorar essas regras, “algumas pessoas tomam BCAA puro, além do necessário”, afirma Leandro.  Essa substância, composta por uma cadeia ramificada de aminoácidos conhecidos como isoleucina, leucina e valina, está presente numa proporção correta no Whey Protein. Segundo os fabricantes do produto, estes aminoácidos são “essenciais para a formação da fibra”. No entanto, estudos demostraram que altas doses de BCAA podem afetar negativamente o rendimento por reduzirem a absorção de água, além de causar distúrbios gastrintestinais e aumentar a produção de amônia.

Antigamente, "ter fibra" era qualidade encontrada naqueles que perseveram na vida ou num determinado trabalho. Hoje, alguns buscam um atalho mais fácil e recorrem a substâncias contidas numa cápsula ou num pó, misturado ao leite... 


(*) Matéria publicada no jornal Terceiro Tempo (Aposentado e Servidor Público), RJ, 16 a 30 de junho de 2011, nº 456.

27 novembro 2010

Quando a impunidade é amiga da violencia*

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A larga pretensão crítica de Tropa de Elite 2 em atingir as diversas mazelas atuais da segurança pública no Estado do Rio pode colocar em cheque o entendimento do filme pelas platéias de outros estados do país. Mas o risco faz parte do processo. Realizar um filme de ficção com “possíveis coincidências com a realidade” é diferente de fazer História. Ao assistirem ao filme, alguns cariocas vítimas da violência identificarão no meio dos personagens os seus algozes, suas ramificações tentaculares, seus esquemas de opressão e corrupção, tudo isso ali recriado e exposto de modo junto e misturado.
Os bandidos, os políticos e policiais corruptos que o diretor José Padilha põe em cena, dominam territórios marginalizados e transformados em currais eleitorais, em detrimento de toda uma população, vítima da falta de segurança, que sofre situações traumáticas e, no extremo, perde a própria vida. Tal fato leva essas pessoas ao medo, ao silenciamento e à alienação. No fundo, as questões apresentadas por Tropa de Elite 2 - O inimigo agora é outro constituem o sintoma local de chagas nacionais: a apropriação e o exercício indevido do poder do Estado; o patrimonialismo e a cooptação pelo medo ou por interesse pessoal.
Não há neste filme as imagens dramáticas e impactantes do documentário Ônibus 174, do mesmo diretor, que relata o momento de revolta de um morador de rua vitimado pela miséria e drogas. O sequestro que transformou o Jardim Botânico (RJ) numa praça de guerra – policiais do Batalhão de Operações Especiais mataram o sequestrador (“Missão dada é missão cumprida”, diz o tenente-coronel Nascimento) mas a operação resultou numa vítima inocente (“Tropa de Elite, pega um pega geral!”) – teve transmissão ao vivo pela TV e deu visibilidade à insegurança e a uma certa violência que começa na periferia da cidade e atinge toda a população.
Dez anos depois dos fatos reais de Ônibus 174, o herói Nascimento retorna, não para combater o narcotráfico mas a “banda podre” que continua dominando a coorporação. Na falta de um substituto a sua altura, só ele pode enfrentar esse desafio. O personagem reúne em sua composição a vontade de pessoas que pensam essas questões dentro da própria Polícia Militar, ou de seus antigos quadros; nas universidades; ONGs; além de “uns sete ou oito políticos ficha limpa”, como diz o coronel Nascimento, a certa altura.
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O possível substituto de Nascimento, Matias (que obtém êxito numa rebelião de presídio ao “matar o bandido para salvar o refém”, ao contrário do que ocorreu no sequestro de 174), representa a “banda limpa”, enquanto o caricato Azevedo, que também é um caveira (oriundo da “tropa de elite” do BOPE) pertence à banda podre da corporação. Associado ao vilão Rocha, chefe da milícia, Azevedo não consegue emergir das poças do sangue derramado nos territórios que eram dos traficantes. Se, na primeira versão, Matias denunciava os viciados como responsáveis pela perpetuação da violência do tráfico ao demandarem o produto de um negócio ilícito, agora ele trava um novo combate, contra um inimigointerno, fazendo de tudo para manter-se íntegro e honrar a farda. 

Na cena em que o Nascimento espanca o personagem do político e ex-secretário de segurança corrupto, o espectador demora um pouco a decidir se aplaude ou não. Enquanto o coronel soca o rosto dele - fazendo valer uma justiça idealizada e desejada por muitos contra crimes que o sistema normalmente não pune -, um ou outro na platéia começa a aplaudir, primeiro timidamente. Em seguida são muitos os que aplaudem, numa espécie de catarse coletiva. A demora pode ser atribuída à dúvida diante de um desejo de vingança reprimido ou, talvez, pela inverossimilidade da ficção, confrontada com a experiência vivida.
Será que os espectadores desse filme que denuncia a impunidade que o sistema perpetua, votaram em políticos que compram votos e/ou são apoiados pelos ditos milicianos? Será que o coronel vai se candidatar nas próximas eleições? Ou terá um fim parecido ao do “recalcitrante” Matias, defensor praticamente solitário e obstinado das "coisas do povo" (res publica), daquilo que não é propriedade privada e deve ser mantida por (e para) muitos? 
Assistam na tela grande a passagem dessa tropa. Não se assustem tanto com as balas e seu volume de som, no dolby stereo. Se preciso, fechem ou virem os olhos para o lado; afinal se a realidade é insuportável, a vontade é que tudo, na tela, seja ficção. Mas, infelizmente, dentro e fora da sala de cinema, a história ou enredo coincidem às vezes com acontecimentos do nosso dia-a-dia. Isso explica a escolha do nome dos bairros no filme, a saber, Tanque, um que realmente existe e; "Rio das Rochas”, dominado pelo PM e chefe miliciano Rocha, inspirado no bairro Rio das Pedras; ambos localizados na zona oeste carioca.
Após a sessão, vale a pena ficar atento ao que se passa na realidade; algo inevitável aos que vivem nessa cidade, mesmo quando a violência beira o insuportável e  desejamos à fuga... Mas, é justamente no momento em que nossa esperança sofre abalos que devemos  perseverar para enxergarmos, no fim do túnel, alguém que chega com a coragem, a sede transformadora e a integridade moral de um coronel Nascimento. 
Acreditem nele como  um homem, e não apenas como o héroi idealizado, único e solitário, capaz de nos  proteger desse inferno de violência. Até porque não parece haver outra saída. Que uma tropa de elite verdadeira e imaculada, lado a lado com políticas sociais, façam o seu trabalho, separando o joio do trigo  para  que a paz  e a justiça reinem brevemente em nosso Estado.