IV CBJA (2ª Parte)
Trigueiro: "Aterro sanitário é uma bomba-relógio ambiental"
Dando sequência ao relato sobre o 4º Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental, seguem ideias e reflexões de André Trigueiro, apresentador e editor executivo do programa Cidade e Soluções (Globo News), em suas participações na abertura e no encerramento do evento.
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| André Trigueiro, editor e apresentador do programa Cidade e Soluções. |
Na palestra do dia 17, ele afirmou que existe "um déficit de comunicação" na cobertura dos temas ambientais pela imprensa brasileira e deu como exemplo um fato atualíssimo:
- Nós temos hoje um vazamento acontecendo na Bacia de Campos, há mais de uma semana, e que revela um problema grave de regulação, falta transparência dos fatos e de agilidade na forma como a comunicação é passada. Isso seria um fato menor, se não fosse este o país do Pré-sal e o nosso leito marinho em águas ultra-profundas um potencial paliteiro de poços - o que transformará esse país num candidato virtual a membro da OPEP sem que a gente tenha as ferramentas institucionais devidamentes azeitadas para monitorar uma atividade de altíssimo risco ambiental.
Ele lamentou que esse assunto tenha sido coberto de modo ‘desprezível’ pelas mídias: ‘Por que o nível de desemprego na Itália é mais importante e ocupa mais espaço na mídia brasileira do que o vazamento da Chevron? As grandes mídias desprezaram esse assunto e este fato é muito grave porque o Brasil é o país do Pré-sal. Isso abre um precedente perigoso e ruim’.
André Trigueiro também criticou o ‘mérito” e o “método” do trâmite do Código Florestal no Congresso:
- Esse assunto foi muito mal trabalhado pelos congressistas desde a relatoria até a subsequente votação. Os debates se deram de forma acalorada e radical. Mas isso não justifica a cobertura fragmentada e mal feita por boa parte da mídia brasileira que, se não ignorou, cobriu de forma muito pontual. Então fica difícil compreender como num país complexo e megabiodiverso como o Brasil, que tem a maior floresta tropical úmida do mundo, e cinco biomas estratégicos, importantes e pressionados, tramitar um projeto dessa envergadura sem nenhum embasamento científico. Embora a comunidade científica não esteja, majoritariamente, avalizando o texto não vi na mídia a devida constestação; a devida contundência em denunciar o déficit de segurança e de ciência na medida e proporções necessárias para que as franjas de florestas sejam protegidas.
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Trechos da participação de Trigueiro na abertura e na palestra de inspiração, na manhã do último dia do congresso:
“No que diz respeito às cidade litorâneas brasileiras a gente tem um problema invisível na pauta e nas prioridades dos prefeitos: o mar está subindo e a gente não está fazendo a conta das implicações disso em relação ao planejamento às margens costeiras. Seja a erradicação dos mangues, seja os projetos de ordem embelezada com ciclovia, quiosques e calçamento pertinho do espelho d´água. Encrenca! As duas cidades mais vulneráveis do ponto de vista da elevação do nível do mar, Rio de Janeiro e Recife, são densamente povoadas, compostas de estuários e áreas de baixada. A combinação desses três fatores determinam a vulnerabilidade extrema a qualquer pequena elevação do nível do mar. Duvido que os prefeitos do Rio e de Recife não saibam disso e duvido que eles estejam realizando políticas públicas efetivas no sentido de tentar reduzir o risco iminente de impacto.
| Dal Marcondes, gestor de conteúdo do portal Envolverde |
“Como disse o Dal Marcondes, precisamos resgatar e extrair das diversas tradições uma teologia ecológica. Em discussões sobre meio ambiente não há soluções universais.
“Ética é aquilo que você faz por convicção, ainda que sozinho e que implique sacrifício. É algo introjetado, como acontece com o meu vizinho que, no meio da noite, sem estar preocupado que alguém esteja olhando, recolhe os dejetos do seu cão na rua. Já o folião que despeja hecta litros de ácido úrico no chão exemplifica o comportamento de um sujeito totalmente desprovido de ética.
“Sustentabilidade ou desenvolvimento sustentável só ocorre onde há planejamento de longo prazo. Pincei algumas experiências do que está funcionando por aí, dando provas de que as coisas têm jeito e podem dar certo: a nível municipal, o Brasil já tem a ferramentas do IPTU Verde. O que é isso? São prefeitos que definem a isenção do pagamento, ou a redução das alíquotas de IPTU, cobrando uma taxa baratinha se numa determinada área existe verde, vegetação e o município reconheça como de importância estratégica para a climatização, absorção de água da chuva e microdrenagem na cidade. No programa Cidade e Soluções nós mostramos um exemplo do IPTU Verde aplicado à cidade gaúcha de Lageado. Outra ferramenta é o ICMS Ecológico, amplamente disseminado em vários estados do país, os quais têm autonomia para estabelecer um critério próprio de repasse. Com o ICMS Ecológico você vai ter um fator determinante maior ou menor no repasse dos tributos aos municípios pela capacidade dele fazer a proteção da biodiversidade e a gestão do seu lixo e de sua bacia hidrográfica.
“O Brasil está na pré-história na destinação do lixo na maior parte dos municipios. 65% dos municípios brasileiros despejam seus resíduos sólidos urbanos a céu aberto. Isso é uma bomba-relógio ambiental porque emite gases de efeito-estufa, o chorume percola*, se infiltra, polui a água subterrânea, atraindo vetores, ratos, baratas e urubus, que transmitem doenças em seres humanos, miseráveis e excluídos que vão ali buscar uma oportunidade de ganhar a sua vida com dignidade.
(*) Capacidade do líquido de atravessar um determinado meio; fluir; passar um líquido lentamente, sob pressão, através de um meio sólido para o filtrar ou para fazer a extração de substâncias desse meio.
“Temos a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.395) que determina que os resíduos não sejam mais destinados em vazadouros a céu aberto. Apesar do prazo exíguo, é uma baita solução para que se mude essa realidade perversa. Até 2014 todos esses municípios terão que ter planejamentos bem definidos e construídos nesse sentido. Há quem não queira que este prazo seja o prazo definitivo e há uma disputa para que ele seja ampliado. Eu sugiro aos colegas que em suas pautas não deixem de lembrar os prazos, e que é viável e crível, sim, cumpri-los pois mesmo os municípios que não tenham recursos para os aterros sanitários ou outras destinações possíveis podem recorrer a ferramentas como consórcios intermunicipais ou acessar certos fundos públicos que vão financiar isso. Há saída. É desonesto dizer que os municípios pobres não têm solução. Vai ser difícil mas têm.
“São Paulo produz 15 mil/toneladas de lixo por dia. É uma vergonha uma cidade que não tem espaço para aterro. Se você não recicla está cavando a própria cova porque precisa encontrar mais lugar para colocar o lixo que não foi capaz de reciclar. Apenas um por cento do que se coleta em São Paulo é separado para reciclagem, e os catadores ainda são discriminados. Chamar um catador de ‘catador de lixo’, é uma ofensa. Ele é um ‘micro-empresário’ de resíduos. Ele é mais competente que nós no sentido de enxergar e valorar aquilo que a gente despreza. Mas São Paulo é um exemplo através das usinas de São João e Bandeirantes que produzem 7% da energia consumida a partir da queima do metano. Ao invés de aterros sanitários, como o de Gramacho, devemos construir centrais tecnológicas de energia para um maior aproveitamento energético de resíduos. Nelas, o lixo é acumulado, encapsulado e, debaixo do material comprimido, o lixo apodrece e a matéria orgânica se decompõe. O resultado dessa digestão anaeróbica das bactérias é o metano, que succionado e queimado, produz energia elétrica.
“Fui à ultima conferência do C-40 [grupo que reúne prefeitos das 40 maiores cidades do mundo para discutir problemas ambientais e mudanças climáticas] e vi um painel sobre resíduos sólidos que me deixou perturbado porque a gente no Brasil ainda está querendo coletar o lixo. (...) A Comlurb é uma companhia querida pelos cariocas que faz a coisa certa, no século errado. Infelizmente, prevalece ali a engenharia clássica: coleta, transporte e ponto. Companhia de limpeza urbana é coisa do passado. A meta, a julgar pelos exemplos de Los Angeles e Tóquio, são as centrais tecnológicas de resíduos. Tudo que você coletar tem que ter destinação em termos de produção e energia.
“Para gerir lixo, tem que se gostar de lixo.
“Como definiu o mestre de ioga Hermógenes, normose é a capacidade de tornar tudo normal. Mas, se tratando de mídia, é melhor estar angustiado.
“Carro só anda em comercial de televisão. Na vida real, você anda, dobra a esquina e pára. A velocidade média no Rio de Janeiro é de 20 Km/h. Em São Paulo, 15 Km/h! O paulistano passa, a cada ano, um mês dentro de um meio de transporte.
“O problema é dos grandes barões da comunicação ou incompetência também da gente em conseguir rastrear a notícia e cobrí-la com o devido cuidado?
“O que eu estou querendo demonstrar aqui é que existem as políticas públicas, existem os problemas de gestão, de governância... Agora existe o intangível, o imponderável, aquilo que não se tem controle. E quando ele vem, deixa vir que a coisa vai mudar. Se a gente acreditar nisso, as mudanças acontecem”.


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