Por Samuel Averbug
Em 1992, Antônio Carlos Costa plantou a Igreja Presbiteriana da Barra, no Rio de Janeiro, onde é pastor. No ano seguinte estava entre os que fundaram a Igreja Presbiteriana de Icaraí ("Betaninha"), em Niterói. Paralelamente à inauguração dessas igrejas, participou da criação da Escola de Pastores de Niterói e da Escola Teológica Reformada, que funciona nas dependências da Igreja da Barra da Tijuca. O pastor foi um dos pioneiros do bodyboard no Brasil, modalidade praticada pelos seus dois filhos.
Carioca nascido em 13 de junho de 1962, ele é casado com Adriany, que considera uma excelente companheira e esposa. Graduou-se e fez mestrado em Teologia e escreve sua tese de doutorado sobre Jonathan Edwards para a Faculté Libre de Théologie Réformée, na França.
Antônio Carlos tem surpreendendo com as manifestações de rua pacíficas e criativas do movimento que coordena, o Rio de Paz. Ele tem mobilizado a população, convocando-a a sair da passividade e dar respostas à mais recente onda de violência na cidade. Com isso pretende valorizar a democracia e estimular o exercício da cidadania em tempos de medo. “Entre o direito à liberdade e o direito à vida, muita gente está escolhendo o segundo, devido à falta de tradição aqui daquilo que os franceses chamam de poder das ruas”, diz ele.
Em seu caminho de combate à violência pelo poder do Evangelho, teve como episódio exemplar a experiência vivenciada num assalto. Cinco meninos, após tirar seus pertences, ouviram uma “palavra bíblica” antes de irem embora. Aquilo que estavam fazendo, disse ele, era um pecado que teria repercussão não só aqui nesta vida, mas para sempre, inclusive depois da morte. Assustados com a mensagem do pastor, os meninos jogaram fora suas facas e devolveram-lhe tudo. Desta forma, desarmou aqueles jovens e, quem sabe, tenha dado um rumo diferente, menos violento, àquelas vidas.
Diante de todos esses temores e desafios sociais, esse pastor se lança como condutor de novas ações; muitas, inclusive, que unem públicos distintos, como carnavalescos, torcedores de futebol e evangélicos de variadas denominações. O Rio de Janeiro é hoje uma cidade enlutada. O que fazer?
Que resposta você espera da população aos atos públicos do Rio de Paz? Enquanto uma parcela ainda acredita em manifestações, no “poder da rua” para combater o que você chama “letalidade obscena”, outra parece já estar descrente e cansada, apesar de vítima da violência no cotidiano.
ANTÔNIO CARLOS – Eu posso entender o ceticismo de muitos. Em primeiro lugar, não há uma cultura de participação democrática no Brasil. Em segundo, as pessoas são muito descrentes com relação a ações pacíficas e dentro dos parâmetros estabelecidos pelo estado de direito. Disseram-nos que o manifesto deveria ser mais contundente, mais duro. Mas realmente estamos querendo fazer as coisas dentro dos parâmetros da lei, porque somos cristãos. O texto bíblico de Romanos 13, para nós, é um absoluto ético do cristianismo (devemos nos submeter às autoridades). E tem outra coisa: apesar das imperfeições da nossa democracia, podemos dizer que existe um Estado brasileiro. Temos nossas leis estabelecidas e todo um caminho, igualmente formado, mediante o qual a população pode expressar o seu ponto de vista, a sua indignação, a sua revolta. Estamos querendo utilizar esses caminhos que, muitas vezes, o povo brasileiro desconhece.
Outro ponto é o fato de que, em geral, as pessoas que dizem que essas ações são ineficazes revelam um nível de indiferença muito grande. Penso que elas não acreditam porque estão mais preocupadas com seus interesses pessoais do que com o bem-estar do seu semelhante. Não surgiu ainda no nosso país um movimento que ajudasse a organizar a sociedade civil em torno de uma proposta exeqüível, factível, me perdoe dizer com imodéstia, como o Rio de Paz, que tem uma proposta e vai além, pois vamos entregar um manifesto ao governador do Estado e acompanhar de perto aquilo que ele vai fazer com nosso protesto.
Você diria que o Estado não tem cumprido o seu papel?
ANTÔNIO CARLOS – É evidente que não. Vivemos um momento de ameaça grave à democracia brasileira porque as pessoas estão chegando à conclusão de que a democracia não resolve. Alguns chegam ao ponto de dizer que somente o regime ditatorial resolveria, porque o brasileiro não consegue viver de modo ordeiro a não ser por essa via, o que eu discordo inteiramente. Só é capaz de apoiar uma coisa como essa aquele que não conhece o horror de se viver num ambiente sem liberdade de expressão, num contexto em que a imprensa não consegue fazer o seu trabalho.
Então, penso que a situação é tão grave que estamos vivendo, de certa forma, uma ruptura do contrato social no seu quesito mais elementar, que é a preservação da vida: de um lado o direito e o desejo de ser livre, do outro, o direito e o desejo de viver. Só que não tem sentido você falar no direito de liberdade sem o direito à vida. Logo, é uma ameaça à democracia porque as pessoas, entre a vida e a liberdade, vão optar pela vida, o que é trágico, pois devemos lutar por ambas as coisas. Tivemos, no Rio de Janeiro, mil homicídios em apenas dois meses e meio: é o que chamo de letalidade obscena.
Além da participação em atos públicos, como o carioca pode “resistir” à barbárie e ao desrespeito dos criminosos ao direito à vida?
ANTÔNIO CARLOS – Como teólogo, minhas preocupações sempre foram de natureza teológica e metafísica, e, de uns tempos para cá, me envolvi, por conta do estabelecimento dessa barbárie no nosso estado, com todos esses problemas sociais. Mas a resposta está com as autoridades públicas, com os especialistas em segurança pública. Por isso, estamos realizando um fórum de segurança pública, na Firjan, no qual as autoridades vão dizer o que é necessário para baixar a taxa de homicídios e, com base no material colhido, vamos apresentar um manifesto.
O que a sociedade civil pode fazer é emprestar força para o poder público, pois acredito que, hoje, mesmo um governador bem intencionado no Brasil tem uma liberdade de ação restrita em função da corrupção endêmica institucional. As decisões que o chefe de governo deve tomar, que sabe que precisa tomar, muitas vezes não são tomadas por causa do desinteresse de pessoas que estão à frente das instituições. A sociedade civil deve emprestar força ao poder público para que, mediante este respaldo popular adicional, ele possa ter coragem de tomar as decisões que precisam ser tomadas.
A corrupção é o grande entrave, ao lado das injustiças sociais, da falta de educação e de uma justa distribuição de renda. Ou seja, quem tem a incumbência de aplicar a lei, em parte, está envolvido com o crime. Nesse fórum, o Estado é que vai dar respostas para a gente. Muitas vezes, a Igreja erra por entrar em áreas para as quais não tem competência, oferecendo respostas que já foram provadas como ultrapassadas. Eu, por exemplo, um teólogo, tenho respostas gerais, a começar pela ausência de Cristo no coração. Agora, respostas específicas para o problema, o que precisa ser feito em termos de política, de ação pública, é só para quem se dedicou a isso a vida toda.
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Por que, então, você começou a se interessar por esse assunto?
ANTÔNIO CARLOS – Vou te contar uma experiência. Eu estava no culto da minha igreja num domingo e senti uma vontade de orar, pedindo a Deus por proteção, porque sei que não é fácil se envolver em questões dessa natureza sem correr riscos de vida. E eu falei: “Deus, homens no passado fizeram a tua obra, certos de que o Senhor haveria de guardá-los e, por isso, foram em frente. Então, se aprouver a ti, me dá uma segurança...” Veio ao meu coração a seguinte coisa: “Se eu te dissesse que haveria de te proteger, você faria o que você está fazendo?”. Eu disse: “Certamente, Senhor”. “Agora, se eu te dissesse que não haveria de lhe garantir proteção, você faria o que está fazendo?”. Aí eu disse: “Certo que faria, porque não estou fazendo por causa da garantia de salvo-conduto, mas por causa da consciência do compromisso que tenho com o Evangelho”.
Foi o Evangelho que me colocou esse tipo de questão, o Evangelho que me leva a crer que a vida humana é preciosa aos olhos do Criador e que ela não pode ser “barateada”, conforme está acontecendo no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro. Confesso que, paralelo a isso, há um desejo de ver o valor da vida ser preservado, de criarmos uma cultura de respeito à santidade da vida humana no nosso estado.
Tenho também o sonho de ver restaurado o respeito da Igreja perante a opinião pública. Nós perdemos o crédito, as pessoas nos têm como alienados. E a minha esperança é que um dia seja contada a história de que quem colocou aquelas cruzes nas areias de Copacabana [em 17/03] foram servos de Deus, que 90 por cento das pessoas que se deitaram no calçadão de Copacabana [na manhã do último Sábado de Aleluia] eram membros de igrejas evangélicas do Grande Rio. Quero que corra pela nação a notícia de que somos um povo interessado na salvação integral do homem, no perdão de pecados e na redenção do seu ser no que tange às estruturas de opressão que infelicitam a vida de tantos.
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| 19ª Manifestação do Rio de Paz "Os 4.000 que estão para morrer" Copacabana (RJ), 27/06/2008 |
Como são idealizados os atos do movimento? E como foi o episódio de vocês durante o desfile do Bola Preta no carnaval e com a torcida no Maracanã?
ANTÔNIO CARLOS – Ia ter uma manifestação nossa no mesmo dia e horário em que o Cordão do Bola Preta ia dar início ao carnaval no Rio de Janeiro. Um jornalista me perguntou se eu não estava preocupado com esse “encontro” e eu respondi que estava absolutamente certo de que eles iam respeitar nosso ato. Quando eles chegaram, não houve inicialmente um silêncio, o que me fez ir na direção do bloco para pedir ao dirigente deles que respeitasse o nosso movimento e fizesse silêncio. Fiquei ao lado dele e falei: “Olha, rapaz, esta semana houve uma morte que causou comoção popular. A cidade está sob o impacto desse homicídio, dessa morte cruel, e eu penso que nós poderíamos guardar um minuto de silêncio em respeito aos parentes da vítima [o menino João Hélio]”. Eles fizeram o minuto de silêncio e depois o rapaz disse para a multidão: “Em 89 anos da história do bloco, nós nunca paramos de cantar e sambar para fazer um minuto de silêncio”. Em seguida, me passou o microfone e eu, pastor, vim “conduzindo” o Cordão do Bola Preta, dizendo para as pessoas voltarem um dia para a Cinelândia, não para sambar, mas juntas lutarem por justiça e paz na nossa terra.
E na torcida do Botafogo foi a mesma coisa. Eu [botafoguense] e um rapaz da nossa igreja, fomos para a torcida principal, a Fúria Jovem, e perguntei: “Quem é o chefe disso aqui?” Responderam: “Ele tá lá em cima”. De repente, me vejo no meio da turma que comanda o espetáculo e os cantos de guerra, dizendo: “Por favor, tenho um negócio importante para falar: esta semana morreu uma criança, uma morte estúpida, e eu penso que é da vontade de Deus que hoje a gente esteja aqui não apenas para torcer, mas para clamar por paz na nossa cidade”. Antes de chegarmos, eles estavam cantando as músicas mais duras, incitando a torcida adversária. Quando terminei, a torcida inteira bateu palmas. Depois, voltei para o meu lugar e eles começaram a gritar “justiça, justiça, justiça!”.
Durante trinta segundos, a torcida clamou por justiça. Eu freqüento o Maracanã desde a década de 60 e foi a primeira vez que vi uma coisa dessas, o que leva a crer que se houver uma aproximação do povo com uma linguagem clara e apaixonada, pode ser que muita gente se envolva.
A manifestação no Sábado de Aleluia correspondeu às expectativas?
ANTÔNIO CARLOS – Foi um milagre. Imagina numa manhã de feriado, com sol, você fazer um convite para que mil pessoas estejam na praia de Copacabana, não para mergulharem no mar, mas para se deitarem no calçadão durante trinta minutos, sob sol escaldante, e protestar contra o número absurdo de homicídios na cidade. Conseguimos reunir essas mil pessoas e levamos para o Brasil e para o mundo essa imagem da barbárie, protestando de modo inteligente e pacífico. É um tipo de protesto que, embora não envolva muita gente, consegue emitir uma imagem muito contundente, que choca, que desperta. Uma coisa mais voltada para a ação inteligente do que propriamente para uma multidão presente ao evento. A idéia é atingir, pela imagem veiculada nos órgãos de comunicação, os lares do mundo inteiro.
Foi o que aconteceu no evento das cruzes na areia, que apareceu no mundo inteiro e foi abertura do Jornal Nacional. Todos os nossos eventos apareceram nos telejornais; ganhamos capa nos grandes jornais do país. Eu chamaria isso de “Marcha com Jesus”, que é tão importante quanto a “Marcha para Jesus”. Que é você andar por lugares onde Jesus andaria se estivesse em nosso meio.
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| 12ª Manifestação - São Paulo pela Paz Bosque da Lamentação Minhocão (SP), 01/07/2007 |
Como presbiteriano de linha calvinista, como analisa o panorama nacional das igrejas?
ANTÔNIO CARLOS – Temos que fazer um recorte. Há igrejas verdadeiras e saudáveis. Por outro lado, encontramos igrejas verdadeiras mas com teologia fraca e com muita imaturidade. E há um grupo que não é nem cristão, mas que está vendendo salvação, perdão e cura. Devemos fugir de dois pecados: não devemos ter comunhão com pessoas que não são fiéis às Escrituras e desfiguram a beleza do Evangelho, e não devemos romper com igrejas com as quais discordamos em pontos periféricos, não essenciais. Isso não é fácil, pois há um limbo que é de difícil discernimento.
Devemos, então, seguir o que os reformadores disseram: sempre há igreja verdadeira onde encontramos a correta ministração dos sacramentos, a verdadeira pregação da Palavra e o exercício da disciplina. Precisamos urgentemente de uma reforma no púlpito: pastores mais cultos, de vida mais santa e mais cheios do Espírito Santo.



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