Seções

03 abril 2012

O Grande Chefe Seattle

Em 1854, o presidente dos Estados Unidos quis comprar uma grande área de terra dos índios peles-vermelhas, prometendo uma reserva para que nela eles pudessem viver. A resposta do Cacique Seattle é tida como uma profunda declaração de amor ao Meio Ambiente, brotada do coração puro e simples de um índio cheio de reconhecimento à Natureza por tudo de bom que ela dá ao homem.

 Chefe Seattle (1780-1866)
“O grande chefe de Washington mandou dizer que deseja comprar nossa terra, o grande chefe nos assegurou também de sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não precisa de nossa amizade.

Vamos, então, pensar em sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O grande chefe de Washington pode confiar no que o Chefe Seattle diz com a mesma certeza que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano.

Minhas palavras são como as estrelas, elas não empalidecem.

Como é possível comprar ou vender o céu, o calor da terra? Esta ideia nos é estranha. Se não somos dono do frescor do ar e do resplendor da água, como então é possível comprá-los? Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo, cada ramo reluzente do pinheiro, cada punhado de areia da praia, a penumbra na densa floresta, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência de meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho.

Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela faz parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia, são nossos irmãos. Os picos rochosos, os sulcos úmidos nas campinas, o calor que emana do corpo de um potro, e o homem - todos pertencem à mesma família.

Portanto, quando o grande chefe de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele pede muito de nós. O grande chefe diz que irá nos reservar um lugar onde possamos viver satisfeitos; que ele será nosso pai e nós seus filhos. Portanto, vamos considerar a sua oferta de comprar nossa terra. Mas não vai ser fácil, porque esta terra é para nós sagrada.

Esta água brilhante que corre nos riachos e rios não é apenas água, e sim o sangue de nossos ancestrais. Se lhes vendermos a terra, terás de se lembrar de que ela é sagrada, e ensinar a seus filhos que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e recordações da vida de meu povo. O rumorejar d'água é a voz de nossos ancestrais. Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossos filhos. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem se lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também. Portanto, devem dar aos rios a afabilidade que dariam a um irmão.

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele, um lote de terra é igual a outro, pois ele é um forasteiro que chega à calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e depois de conquistá-la, ele vai embora. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados, e não se importa. Tira da terra aquilo que seria herança de seus filhos e não se importa. 


Esquecem a sepultura de seus pais e os direitos de seus filhos. Trata sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelhas ou enfeites coloridos. Sua voracidade arruinará a terra, deixando para trás apenas um deserto.

Não sei, nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os nossos olhos. Talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e não compreende.

Não há sequer lugar tranquilo nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o bater das asas de um inseto. Mas talvez seja porque sou um selvagem que não compreende; o barulho parece apenas insultar os ouvidos. E o que resta da vida se um homem não pode ouvir a voz solitária de uma ave ou, de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo? Sou um homem vermelho e não compreendo. O índio prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar a superfície de um lago e o cheiro do próprio vento, purificado pela chuva do meio-dia ou perfumado pelos pinheiros.

O ar é precioso para o homem vermelho, porque todas as criaturas compartilham o mesmo sopro - os animais, as árvores, o homem, todos compartilham o mesmo ar. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, é insensível ao mau cheiro. Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve se lembrar de que o ar é precioso para nós, que o ar reparte seu espírito com toda a vida que sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe o seu último suspiro. E se lhes vendermos nossa terra, vocês devem mantê-la intacta, como um santuário, como um lugar onde o próprio homem branco possa ir saborear o vento adoçado com a fragrância das flores campestres.

Portanto, vamos considerar tua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não posso aceitar que possa ser de outro jeito. Tenho visto milhares de búfalos [bisões] apodrecendo nas planícies, abandonados pelo homem branco que os abate a tiros disparados de um trem em movimento. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo que sacrificamos apenas para o sustento de nossa vida.

O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabarem, o homem morrerá devido a uma grande solidão de espírito. Pois o que acontece aos animais, em pouco tempo, acontece com o homem. Tudo está interligado.

Vocês devem ensinar a seus filhos que o solo debaixo de seus pés são as cinzas de nossos antepassados; para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo. Ensinem a seus filhos o que ensinamos aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo o que fere a terra, fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão, cospem sobre eles próprios.

De uma coisa sabemos. A terra não pertence ao homem; é o homem que pertence à terra. Disto temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está interligado. Tudo que se fizermos de mal à terra, recairá sobre os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um de seus fios. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará.

Os nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbiram sob o peso da vergonha. E depois de derrotados passam o tempo sem fazer nada, envenenando seus corpos com alimentos açucarados e bebidas alcoólicas. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias - não somos muitos. Mais algumas horas, mesmo uns invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que têm vagueado em pequenos grupos pelos bosques sobrará para chorar sobre os túmulos de um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.

Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. Podemos ser irmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa estamos certos, e o homem branco perceberá um dia: nosso Deus é o mesmo Deus. Vocês podem achar que O possuem, do mesmo modo que desejam possuir nossa terra; mas não é possível. Ele é o Deus de todos os homens. Sua compaixão é igual para com o homem vermelho e o homem branco. A terra lhe é preciosa, e feri-la é desprezar o seu criador. Os brancos também passarão; talvez mais cedo que todas as outras raças. Se continuarem contaminando onde dormem, uma noite morrerão sufocados pelos próprios dejetos.

Porém, ao perecerem, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e que, por alguma razão especial, lhes deu o domínio sobre esta terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é para nós um mistério, pois não podemos imaginar como será quando todos os búfalos forem exterminados, os cavalos bravios domados, as brenhas das florestas carregadas do odor de muitos homens e a visão das velhas colinas obstruídas por fios que falam. Onde ficará o emaranhado da mata? Desaparecerá. Onde estará a águia? Desaparecerá. Restará apenas dar adeus à andorinha e à caça; será o fim da vida e o começo da luta pela sobrevivência.

Compreenderíamos, talvez, se conhecêssemos com o que sonha o homem branco, se soubéssemos quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, qual a visão de futuro que nutre suas mentes para que possam formar desejos para o dia de amanhã. Somos, porém, selvagens. Os sonhos do homem branco são para nós obscuros, e por serem obscuros, temos de escolher nosso próprio caminho. Se consentirmos, será para garantir as reservas que nos prometestes. Lá, talvez, possamos viver o nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará vivendo nestas florestas e praias, porque nós a amamos como ama um recém-nascido o bater do coração de sua mãe.

Se lhes vendermos a nossa terra, ame-a como nós a amamos. Proteja-a como nós a protegemos. Nunca se esqueçam de como era esta terra quando dela se apossaram. E com toda a sua força, todo o seu poder e todo o seu coração - conserva-a para seus filhos e ame-a como Deus ama a todos. De uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus, esta terra é por ele amada. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.”


Nenhum comentário:

Postar um comentário