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31 janeiro 2012

A COP-17 em Durban decidiu salvar o Protocolo de Kyoto*

Por Malu Nunes, Diretora Executiva da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza


Ao final da 17ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-17) alguns avanços nas discussões foram verificados, todavia as datas para início do novo acordo estão muito longe para entrar em vigor efetivamente. O evento estava esvaziado, com poucas manifestações da sociedade civil e, principalmente, com pouca presença de Chefes de Estado e personalidades importantes. Mesmo assim, ela deverá entrar para a história como a COP que mudou completamente o rumo das negociações globais de clima e, inclusive, a posição do Brasil.   



Durante a COP-17, foi aprovada a “Plataforma de Durban”, um Mapa do Caminho para um acordo global de redução de gases do Efeito Estufa, estabelecendo um calendário para criar, até 2015, um instrumento legal vinculante. O coordenador de estratégias de conservação da Fundação Grupo Boticário, André Ferretti, que também esteve em Durban, explica muito bem que, até agora os países estavam divididos em dois grupos: o dos países ricos (Anexo I), com metas obrigatórias de redução; e o dos países em desenvolvimento, sem metas. “Com as decisões tomadas em Durban, após 2020, todos os países terão metas de redução de emissões, o que viabiliza a participação dos Estados Unidos e outros países que são grandes emissores de gases de Efeito Estufa e não participam do Protocolo de Kyoto”, afirma. 

O fato de o Brasil concordar com a elaboração do acordo pós-2020 também é um ato histórico. É a primeira vez que nossos negociadores aceitaram ter metas obrigatórias. Quando o Brasil anunciou oficialmente que defendia que esse novo acordo teria que ser legalmente vinculante; que os países deveriam assumir as metas como compromissos legais e que as metas seriam para todos, além de lembrar que ele precisava ser construído com base na ciência, a partir dos dados que serão divulgados pelo IPCC em 2014, surpreendeu a todos os delegados. 

O Brasil também teve papel de destaque no final das discussões. Ainda segundo André Ferretti, o embaixador brasileiro Luiz Alberto Figueiredo chegou na segunda semana para “arrumar a casa” e corrigir pequenos deslizes do Brasil na primeira semana de negociação. Sem a intervenção do Brasil na hora decisiva da COP-17, muito provavelmente nenhum acordo teria sido aprovado em Durban. Figueiredo propôs trocar "resultado legal" por "resultado acordado com força legal", uma mudança simples, mas que foi crucial para a decisão.  

O que fazer até 2020?  

Como o atual Protocolo de Kyoto se encerra em 2012 e o novo acordo só passará a valer em 2020, os países também aprovaram na COP-17 a renovação de Kyoto, pelo menos, até 2017. Esse é um “remendo”, para que não haja um período de interrupção até que seja estabelecido o novo acordo. Nessa renovação de Kyoto, os países emergentes – que hoje não têm metas – seguiriam as suas próprias metas voluntárias, de acordo com o que foi estabelecido na COP-15. Porém essas metas não estão baseadas no ano de referência de 1990, e sim apenas no que os países podem reduzir em relação a se não tivessem nenhum controle. 

O problema é que grandes emissores mundiais não participarão dessa renovação de Kyoto. “Mais oito anos – de 2013 a 2020 – sem os Estados Unidos, que não ratificou o primeiro período do Protocolo de Kyoto (2008 a 2012), é muito. Para piorar, mais três países importantes também ficarão fora por esse tempo: Rússia, Japão e Canadá”, comenta Ferretti. 

Todos sabem que 2020 está muito longe e que as emissões atuais são muito grandes. Se esperarmos até lá para que os países tenham reduções significativas, talvez não haja tempo para evitar que o aumento da temperatura média do planeta não aumente mais que dois graus Celsius. André Ferretti, explica que muita coisa ainda precisa ser negociada nas próximas COPs e será preciso esperar bastante tempo para que as medidas que todos esperam sejam de fato adotadas. Só na próxima década é que efetivamente reduziremos as emissões mundiais de gases de Efeito Estufa no nível que a ciência já vem recomendando há 10 anos. Enquanto isso, não temos como calcular os prejuízos. 

Ele diz, ainda, que os avanços estão acontecendo, mas a atenção precisa continuar voltada para esta questão e a população precisa cobrar os resultados. A sociedade e os governos de todos os países precisam estar muito atentos para que as negociações avancem como acordado agora na África do Sul. Foi uma grande conquista acertar as bases para um novo acordo vinculante com participação dos Estados Unidos e todos os países que participam da Convenção do Clima, mas se não tomarmos muito cuidado podemos chegar a níveis de emissões muito preocupantes nos próximos anos, gerando grandes devastações. 

Além dos acordos, na COP 17 também foi aprovado o Fundo Verde do Clima, proposto inicialmente na COP-16 em Cancún, que tem a promessa de US$ 100 bilhões anuais a partir de 2020 para combater as emissões e promover ações de adaptação à mudança climática nos países em desenvolvimento. É importante destacar que a participação dos países em desenvolvimento é fundamental para a mitigação das mudanças climáticas. É crucial que os países emergentes se desenvolvam com energia limpa, pois, se suas economias crescerem à custa da poluição vai ser devastador. 


16 janeiro 2012

O que é Pegada Ecológica?

Você já parou para pensar que a forma como vivemos deixa marcas no ambiente? É isso mesmo, nossa caminhada pela Terra deixa “rastros”, “pegadas”, que podem ser maiores ou menores, dependendo de como caminhamos. De certa forma, essas pegadas dizem muito sobre quem somos!


A partir das pegadas deixadas por animais na mata podemos conseguir muitas informações sobre eles: peso, tamanho, força, hábitos e inúmeros outros dados sobre seu modo de vida.

Conosco, acontece algo semelhante. Ao andarmos na praia, por exemplo, podemos criar diferentes tipos de rastros, conforme a maneira como caminhamos, o peso que temos, ou a força com que pisamos na areia. Se não prestarmos atenção no caminho, ou aceleramos demais o passo, nossas pegadas se tornam bem mais pesadas e visíveis. Porém, quando andamos num ritmo tranqüilo e estamos mais atentos ao ato de caminhar, nossas pegadas são suaves.

Assim é também a “Pegada Ecológica”. Quanto mais se acelera nossa exploração do meio ambiente, maior se torna a marca que deixamos na Terra. O uso excessivo de recursos naturais, o consumismo exagerado, a degradação ambiental e a grande quantidade de resíduos gerados, são rastros deixados por uma humanidade que ainda se vê fora e distante da Natureza. A pegada ecológica não é uma medida exata e sim uma estimativa. Ela nos mostra até que ponto a nossa forma de viver esta de acordo com a capacidade do planeta de oferecer, renovar seus recursos naturais e absorver os resíduos que geramos por muitos e muitos anos. Isto considerando que dividimos o espaço com outros seres vivos e que precisamos cuidar da nossa e das próximas gerações. Afinal de contas, nosso planeta é só um!

A pegada ecológica de um país, de uma cidade ou de uma pessoa, corresponde ao tamanho das áreas produtivas de terra e de mar, necessárias para gerar produtos, bens e serviços que sustentam determinados estilos de vida. Em outras palavras, a Pegada Ecológica é uma forma de traduzir, em hectares (ha), a extensão de território que uma pessoa ou toda uma sociedade “utiliza”, em média, para se sustentar.

Para calcular as pegadas foi preciso estudar os vários tipos de territórios produtivos (agrícola, pastagens, oceano, florestas, áreas construídas) e as diversas formas de consumo (alimentação, habitação, energia, bens e serviços, transportes e outros). As tecnologias usadas, os tamanhos das populações e outros dados, também entraram na conta. Cada tipo de consumo é convertido, por meio de tabelas específicas, em uma área medida em hectares, Além disso, é preciso incluir áreas usadas para receber os detritos e resíduos gerados e reservar uma quantidade de terra e água para a própria natureza, ou seja, para os animais, as plantas e os ecossistemas onde vivem, garantindo a manutenção da biodiversidade.



Composição da Pegada Ecológica

TERRA BIOPRODUTIVA: Terra para colheita, pastoreio, corte de madeira e outras atividades de grande impacto.

MAR BIOPRODUTIVO: Área necessária para pesca e extrativismo.

TERRA DE ENERGIA: Área de florestas e mar necessária para absorção de emissões de carbono.

TERRA CONSTRUÍDA: Área para casas, construções, estradas e infra-estrutura.

TERRA DE BIODIVERSIDADE: Áreas de terra e água destinadas a preservação da biodiversidade.



De modo geral, sociedades altamente industrializadas, ou seus cidadãos, “usam” mais espaços do que os membros de culturas ou sociedades menos industrializadas. Suas pegadas são maiores, ao utilizarem recursos de todas as partes do mundo, afetam locais cada vez mais distantes, explorando essas áreas ou causando impactos por conta da geração de resíduos. Como a produção de bens e consumo tem aumentado significamente, o espaço físico terrestre disponível já não é suficiente para nos sustentar no elevado padrão atual. Para assegurar a existência das condições favoráveis à vida precisamos viver de acordo com a “capacidade” do planeta, ou seja, de acordo com o que a Terra pode fornecer e não com o que gostaríamos que ela fornecesse. Avaliar até que ponto o nosso impacto já ultrapassou o limite é essencial, pois só assim poderemos saber se vivemos de forma sustentável.


Seu estilo de vida diz tudo

Água: Todos os dias você escova os dentes, toma banho, lava as mãos, faz comida, lava a louça e a roupa, utiliza a descarga. Você já pensou o quanto tudo isso consome de água por dia? Para passar das conjecturas de dados, verifique em sua conta o total de metros cúbicos mensais e divida esse valor por 30 dias e pelo numero de pessoas que moram na sua casa. Assim, você terá a sua média individual diária calculada. Somo hoje 6 milhões de habitantes no planeta, com um consumo médio diário de 40 litros de água por pessoa. Um europeu gasta de 140 a 200 litros de água por dia, um norte-americano, de 200 a 250 litros, enquanto em algumas regiões da África há somente 15 litros de água disponíveis a cada dia para cada morador. Segundo os dados da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (SABESP), o consumo médio diário por habitantes da cidade de São Paulo é de 200 litros de água, considerado altíssimo. Há grande desperdício, isto é, aos paulistanos deixam uma pegada ecológica excessiva, no que se refere a água. Certamente é possível melhorar muito!



Energia Elétrica: Diariamente, você faz funcionar luzes e eletrodomésticos como chuveiros, computadores, liquidificadores etc. Também ouve música ou notícias no radio, assiste programas de TV, lava e seca roupas em maquinas, usa elevadores, escadas rolantes, climatização de ambientes (ar condicionado ou aquecedores). Você já pensou em quanta Natureza é preciso “empregar” para fazer tudo isso funcionar? No Brasil a maior parte da energia elétrica consumida é produzida nas hidroelétricas, que exigem, para seu funcionamento, a construção de grandes barragens. Assim, com o aumento de consumo e a decorrente necessidade de produzir cada vez mais energia elétrica, torna-se necessário represar mais rios e inundar mais áreas, reduzindo as florestas, impactando a vida de milhares de outros seres vivos, retirando comunidades de suas terras e alterando os climas locais e regionais como aumento das superfícies de evaporação.

Alimentação: Atualmente, muitas pessoas comem mais do que o necessário. É o que mostram os altos índices de obesidade no mundo, principalmente nas nações mais desenvolvidas. Mas comer em grande quantidade não garante uma boa saúde, pelo contrário. A alimentação é um item muito importante da nossa qualidade de vida, mas, além disso, uma dieta natural e equilibrada é bastante favorável à preservação dos ambientes. O consumo de alimentos orgânicos ou naturais ajuda a diminuir o uso de agrotóxicos e o equilíbrio alimentar leva uma exploração menos irracional dos recursos do planeta, reduzindo, em muitos aspectos, nossas pegadas. Lembre-se de que não faltam alimentos no mundo e sim uma distribuição mais justa.

Consumo e Descarte: Quanto mais consumimos, mais lixo produzimos. Os resíduos naturais, ou matéria orgânica, podem ser inteiramente absorvidos e reutilizados pela Natureza, mas os tipos de resíduos que nossa civilização produz nos dias de hoje, especialmente os plásticos, não podem ser eliminados da mesma forma. Eles levam milhares de anos para se desfazer no ambiente. Você já mediu quanto você, sua família ou seu grupo de trabalho produzem lixo por dia? A média nos grandes centros urbanos é de 1kg por pessoa. É muito lixo! Mas você pode contribuir bastante se separar os materiais descartados.
Comece separando o lixo entre seco (reciclável) e o úmido (orgânico). Você irá observar que o peso do seco é pequeno, porem seu volume é enorme. Já o lixo úmido, ocupa menos espaço, porém é bastante pesado. Parte do lixo seco pode ser encaminhado para a reciclagem e o lixo orgânico, por sua vez, pode ser destinado a compostagem. Esta atitude pode ser difícil no inicio, pois é necessário envolver todos que estão à sua volta, mas se você tem vontade de fazer algo que realmente contribua com a preservação do nosso planeta, continue tentando e implante a coleta seletiva.

Transporte: Quanto você se desloca por dia? De que forma: carro, ônibus, trem, metro, a pé ou de bicicleta? A  maioria dos meios de transporte que utilizamos em nosso cotidiano utilizam combustíveis fosseis, ou seja, não renováveis, Esta fonte energética que vem do petróleo, do carvão e do gás natural polui o ar, principalmente nos grandes centros urbanos, devido à enorme quantidade de automóveis.



Hoje em dia, a ciência e a sociedade civil têm pressionado o poder público e a iniciativa privada na busca de soluções para a poluição. Este enorme problema agrava o aquecimento global e ocasiona o aumento de doenças respiratórias. Por isso, um transporte sustentável tem de utilizar eficazmente a energia, ou seja, transportar o máximo de carga possível gastando o mínimo de combustível. Daí a importância de se utilizar o transporte coletivo e de oferecer carona sempre que possível. Andar de bicicleta e andar alguns trechos a pé, também ajuda a reduzir sua pegada.



Fonte: World Wide Fund for Nature e Alvíssaras


06 janeiro 2012

Posto Ipiranga instala pontos de coleta para baterias e celulares*

A Petróleos Ipiranga mantém desde novembro um projeto piloto de coleta de pilhas, baterias e celulares em cerca de 30 postos da empresa na cidade do Rio de Janeiro. O serviço de descarte de eletrônicos funciona nas unidades Jet Oil, rede da marca que presta serviços automotivos, onde já é feita a coleta do óleo automotivo proveniente das trocas. A iniciativa começou no Rio e o próximo passo é expandi-la para outros estados.

A coleta acontece da seguinte maneira: as unidades participantes contarão com uma caixa coletora, onde qualquer pessoa pode depositar as pilhas e baterias. Os postos repassarão o material para uma empresa de logística que separa e leva os resíduos para a reciclagem.




As baterias de lítio e o lixo eletrônico, em geral, 
são altamente tóxicos e difíceis de degradar.
 (Foto:  Eva de Weaver)

Outra opção de descarte de todo o tipo de lixo eletrônico é o portal e-lixo, iniciativa que cobre todo o Brasil e funciona através do Google Maps, através do cadastro e mapeando dos postos de coleta e reciclagem. Basta colocar o endereço completo da sua residência, o tipo de e-lixo que deseja descartar (impressora, monitores, PCs, etc) e clicar em “buscar postos de coleta”. O banco de dados indica os pontos mais próximos para a destinação adequada do seu lixo eletrônico.

No portal e-lixo também é possível cadastrar novos pontos de descarte no mapa. Basta entrar e seguir os passos da sessão "Adicione seu posto".

Nunca é demais frisar que o lixo eletrônico, especialmente baterias de lítio - super tóxicas e difíceis de degradar – é altamente poluente.



*Adaptação da matéria publicada por Daniele Bragança no portal ((O)) Eco.


Leia também:

05 janeiro 2012

Colônia de Férias grátis no Parque Chico Mendes


Estão abertas as inscrições para a Colônia de Férias de Verão no Parque Natural Municipal Chico Mendes, localizado no Recreio dos Bandeirantes (RJ).

A atividade, voltada para crianças entre 6 e 12 anos é gratuita e ocorrerá entre os dias 25 e 27 de janeiro. Mas não deixe a inscrição para depois. São apenas 40 vagas!

A administração do parque funciona de segunda a sexta, das 10 às 17h e o telefone é 2437-6400.


O Parque

Situado numa área de restinga, na planície arenosa da Baixada de Jacarepaguá, o Parque Natural Municipal Chico Mendes foi criado com o objetivo de preservar a Lagoinha das Tachas e seu entorno, local de ocorrência de espécies de fauna e flora consideradas raras e ameaçadas de extinção. Embora as restingas sejam locais geralmente pobres em mamíferos, alguns deles deixam marcas no solo do parque, sendo avistadas pegadas, rastros e fezes de Preguiças, Gambás e Capivaras.

O parque Chico Mendes é rico em avifauna: cerca de 120 espécies como Galinhas d’água, Frango d’água, Jaçanã ou Cafezinho, Sabiás, Tiê-Sangue, Rolinha-da-Restinga e outras podem ser vistos e/ou ouvidos numa visita.

Também já foram descritas cerca de cem espécies de borboletas, que são consideradas bio-indicadoras de um meio ambiente saudável. A Borboleta-da-praia pode ser observada atualmente com bastante frequência no parque.
Em trechos da Lagoa do Marapendi (do tupi-guarani, "mar limpo") que margeia uma das trilhas, os visitantes podem ver inúmeros jacarés de papo-amarelo, que medem entre 1,50 e 2,50 metros e vivem aproximadamente 50 anos.
Como orienta o guarda florestal, esses animais saem para caçar principalmente à noite e não atacam os homens. No entanto, devemos permanecer fora d´água, que é o seu habitat natural. Podemos observar e fotografá-los enquanto tomam sol, tranquilamente e estáticos, na areia e nas margens do lago, ou boiando apenas com a cabeça fora d´água.


Essa foto não foi tirada no Parque Chico Mendes, mas poderia ter sido.

23 dezembro 2011

IV CBJA (2ª Parte)


Trigueiro: "Aterro sanitário é uma bomba-relógio ambiental"


Dando sequência ao relato sobre o 4º Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental, seguem ideias e reflexões de André Trigueiro, apresentador e editor executivo do programa Cidade e Soluções (Globo News), em suas participações na abertura e no  encerramento do evento.

André Trigueiro, editor e apresentador do
programa Cidade e Soluções
.

Membro da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental e professor da Puc, Trigueiro abordou  nos dias 17 e 19 de novembro, alguns dos assuntos pautados (ou omitidos) pelos veículos de comunicação.

Na palestra do dia 17, ele afirmou que existe "um déficit de comunicação" na cobertura dos temas ambientais pela imprensa brasileira e deu como exemplo um fato atualíssimo:
- Nós temos hoje um vazamento acontecendo na Bacia de Campos, há mais de uma semana, e que revela um problema grave de regulação, falta transparência dos fatos e de agilidade na forma como a comunicação é passada. Isso seria um fato menor, se não fosse este o país do Pré-sal e o nosso leito marinho em águas ultra-profundas um potencial paliteiro de poços - o que transformará esse país num candidato virtual a membro da OPEP sem que a gente tenha as ferramentas institucionais devidamentes azeitadas para monitorar uma atividade de altíssimo risco ambiental. 

Ele lamentou que esse assunto tenha sido coberto de modo ‘desprezível’ pelas mídias: ‘Por que o nível de desemprego na Itália é mais importante e ocupa mais espaço na mídia brasileira do que o vazamento da Chevron? As grandes mídias desprezaram esse assunto e este fato é muito grave porque o Brasil é o país do Pré-sal. Isso abre um precedente perigoso e ruim’.

 André Trigueiro também criticou o ‘mérito” e o “método” do trâmite do Código Florestal no Congresso: 

- Esse assunto foi muito mal trabalhado pelos congressistas desde a relatoria até a subsequente votação. Os debates se deram de forma acalorada e radical. Mas isso não justifica a cobertura fragmentada e mal feita por boa parte da mídia brasileira que, se não ignorou, cobriu de forma muito pontual. Então fica difícil compreender como num país complexo e 
megabiodiverso como o Brasil, que tem a maior floresta tropical úmida do mundo, e cinco biomas estratégicos, importantes e pressionados, tramitar um projeto dessa envergadura sem nenhum embasamento científico. Embora a comunidade científica não esteja, majoritariamente, avalizando o texto não vi na mídia a devida constestação;  a devida contundência em denunciar o déficit de segurança e de ciência na medida e proporções  necessárias para que as franjas de florestas sejam protegidas.

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Trechos da participação de Trigueiro na abertura e na palestra de inspiração, na manhã do último dia do congresso:

“No que diz respeito às cidade litorâneas brasileiras a gente tem um problema invisível na pauta e nas prioridades dos prefeitos: o mar está subindo e a gente não está fazendo a conta das implicações disso em relação ao planejamento às margens costeiras. Seja a erradicação dos mangues, seja os projetos de ordem embelezada com ciclovia, quiosques e calçamento pertinho do espelho d´água. Encrenca! As duas cidades mais vulneráveis do ponto de vista da elevação do nível do mar, Rio de Janeiro e Recife,  são densamente povoadas, compostas de estuários e áreas de baixada. A combinação desses três fatores determinam a vulnerabilidade extrema a qualquer pequena elevação do nível do mar. Duvido que os prefeitos do Rio e de Recife não saibam disso e duvido que eles estejam realizando políticas públicas efetivas no sentido de tentar  reduzir o risco iminente de impacto. 


Dal Marcondes, gestor de
conteúdo do portal
Envolverde
















“Como disse o Dal Marcondes, precisamos resgatar e extrair das diversas tradições uma teologia ecológica. Em discussões sobre meio ambiente não há soluções universais.


“Ética é aquilo que você faz por convicção, ainda que sozinho e que implique sacrifício. É algo introjetado, como acontece com o meu vizinho que, no meio da noite, sem estar preocupado que alguém esteja olhando, recolhe os dejetos do seu cão na rua. Já o folião que despeja hecta litros de ácido úrico no chão exemplifica o comportamento de um sujeito totalmente desprovido de ética.



“Sustentabilidade ou desenvolvimento sustentável só ocorre onde há planejamento de longo prazo. Pincei algumas experiências do que está funcionando por aí, dando provas de que as coisas têm jeito e podem dar certo: a nível municipal, o Brasil já tem a ferramentas do IPTU Verde. O que é isso? São prefeitos que definem a isenção do pagamento, ou a redução das alíquotas de IPTU, cobrando uma taxa baratinha se numa determinada área existe verde, vegetação e o município reconheça como de importância estratégica para a climatização, absorção de água da chuva e microdrenagem na cidade. No programa Cidade e Soluções nós mostramos um exemplo do IPTU Verde aplicado à cidade gaúcha de Lageado. Outra ferramenta é o ICMS Ecológico, amplamente disseminado em vários estados do país, os quais têm autonomia para estabelecer um critério próprio de repasse. Com o ICMS Ecológico você vai ter um fator determinante maior ou menor no repasse dos tributos aos municípios pela capacidade dele fazer a proteção da biodiversidade e a gestão do seu lixo e de sua bacia hidrográfica. 


“O Brasil está na pré-história na destinação do lixo na maior parte dos municipios. 65% dos municípios brasileiros despejam seus resíduos sólidos urbanos a céu aberto. Isso é uma bomba-relógio ambiental porque emite gases de efeito-estufa, o chorume percola*, se infiltra, polui a água subterrânea, atraindo vetores, ratos, baratas e urubus, que transmitem doenças em seres humanos, miseráveis e excluídos que vão ali buscar uma oportunidade de ganhar a sua vida com dignidade.

(*)  Capacidade do líquido de atravessar um determinado meio; fluir; passar um líquido lentamente, sob pressão, através de um meio sólido para o filtrar ou para fazer a extração de substâncias desse meio.


“Temos a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.395) que determina que os resíduos não sejam mais destinados em vazadouros a céu aberto. Apesar do prazo exíguo, é uma baita solução para que se mude essa realidade perversa. Até 2014 todos esses municípios terão que ter planejamentos bem definidos e construídos nesse sentido. Há quem não queira que este prazo seja o prazo definitivo e há uma disputa para que ele seja ampliado. Eu sugiro aos colegas que em suas pautas não deixem de lembrar os prazos, e que é viável e crível, sim, cumpri-los pois mesmo os municípios que não tenham recursos para os aterros sanitários ou outras destinações possíveis podem recorrer a ferramentas como consórcios intermunicipais ou acessar certos fundos públicos que vão financiar isso. Há saída. É desonesto dizer que os municípios pobres não têm solução. Vai ser difícil mas têm.


“São Paulo produz 15 mil/toneladas de lixo por dia. É uma vergonha uma cidade que não tem espaço para aterro. Se você não recicla está cavando a própria cova porque precisa encontrar mais lugar para colocar o lixo que não foi capaz de reciclar. Apenas um por cento do que se coleta em São Paulo é separado para reciclagem, e os catadores ainda são discriminados. Chamar um catador de ‘catador de lixo’, é uma ofensa. Ele é um ‘micro-empresário’ de resíduos. Ele é mais competente que nós no sentido de enxergar e valorar aquilo que a gente despreza. Mas São Paulo é um exemplo através das usinas de São João e Bandeirantes que produzem 7% da energia consumida a partir da queima do metano. Ao invés de aterros sanitários, como o de Gramacho, devemos construir centrais tecnológicas de energia para um maior aproveitamento energético de resíduos. Nelas, o lixo é acumulado, encapsulado e, debaixo do material comprimido, o lixo apodrece e a matéria orgânica se decompõe. O resultado dessa digestão anaeróbica das bactérias é o metano, que succionado e queimado, produz energia elétrica.


“Fui à ultima conferência do C-40 [grupo que reúne prefeitos das 40 maiores cidades do mundo para discutir problemas ambientais e mudanças climáticas] e vi um painel sobre resíduos sólidos que me deixou perturbado porque a gente no Brasil ainda está querendo coletar o lixo. (...) A Comlurb é uma companhia querida pelos cariocas que faz a coisa certa, no século errado. Infelizmente, prevalece ali a engenharia clássica: coleta, transporte e ponto. Companhia de limpeza urbana é coisa do passado. A meta, a julgar pelos exemplos de Los Angeles e Tóquio, são as centrais tecnológicas de resíduos. Tudo que você coletar tem que ter destinação em termos de produção e energia.


“Para gerir lixo, tem que se gostar de lixo.



“Como definiu o mestre de ioga Hermógenes, normose é a capacidade de tornar tudo normal. Mas, se tratando de mídia, é melhor estar angustiado.


“Carro só anda em comercial de televisão. Na vida real, você anda, dobra a esquina e pára. A velocidade média no Rio de Janeiro é de 20 Km/h. Em São Paulo, 15 Km/h! O paulistano passa, a cada ano, um mês dentro de um meio de transporte.


“O problema é dos grandes barões da comunicação ou incompetência também da gente em conseguir rastrear a notícia e cobrí-la com o devido cuidado?


“O que eu estou querendo demonstrar aqui é que existem as políticas públicas, existem os problemas de gestão, de governância... Agora existe o intangível, o imponderável, aquilo que não se tem controle. E quando ele vem, deixa vir que a coisa vai mudar. Se a gente acreditar nisso, as mudanças acontecem”.

22 dezembro 2011

IV Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental  (1ª Parte)

Sustentabilidade, mídias sociais e 
jornalismo em tempo de economia verde

Acompanhei no mês passado, na Puc-Rio, a intensa programação do 4º Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental. Diversos temas foram abordados nas palestras, oficinas, painéis e plenárias do congresso. As participações dos congressistas e palestrantes propiciaram uma série de reflexões e serviu para reafirmar a importância e a responsabilidade social dos jornalistas e editores que trabalham com pautas ambientais. 

Na manhã de abertura os congressistas foram surpreendidos com a confirmação de uma notícia que circulava entre os profissionais da área: havia mesmo um vazamento de grandes proporções num dos poços da Chevron.

Infeliz coincidência ou comprovação da relevância estes profissionais, que buscam mais transparência e comprometimento de toda a sociedade nas questões ambientais? As duas coisas. A propósito, esta informação foi dada em primeira mão por André Trigueiro aos que  na Abertura do evento.


Um dos desafios dos jornalistas que atuam neste setor é "identificar e escolher boas fontes uma vez que elas flertam e fazem lobbies nesse meio", como afirmou no painel Jornalismo em tempo de Economia Verde, o editor da revista Ideia Sustentável, Ricardo Voltolini:
- Há um vício de escolher as mesmas fontes, mas elas precisam ter contextualidade. Estamos escolhendo as empresas que realmente estão fazendo as transformações? Quantos líderes empresariais agem por convicção e quantos agem por conveniência? Será que a gente está conseguindo encontrar fontes dentre os líderes que agem por convicção? 


Autor de Conversas com líderes sustentáveis, Voltolini criticou o governo Lula por ‘não ter enfrentado o desafio dos motores eco-eficientes’ e apontou a ‘carência de líderes na sociedade civil e entre os politicos e empresários. Aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, o último líder da sociedade civil foi o Betinho e não apareceu ninguém depois dele que fosse capaz de mobilizar toda a população, como ele fez’. 

Ele iniciou sua fala com uma análise sobre o contexto da chamada Economia Verde:
- Vivemos um tempo em que já se sabe que os recursos naturais são escassos e que o processo de aquecimento global é capaz de alterar a relação de equilíbrio entre o homem e o meio onde ele vive. De modo muito simplista, para resolver este problema basta que empresas e indivíduos consumam de modo mais sustentável, e governos ajudem empresas e indivíduos a consumirem e produzirem de modo mais sustentável.,

Mas a solução não é tão simples assim. O que é fácil de dizer se torna difícil de pôr em prática. E aí surge um outro desafio ainda mais complexo para os profissionais da comunicação:
- Estamos falando de mudança de modelos mentais de negócios e indivíduos, num cenário em que as pessoas e as empresas não percebem, hoje, exatamente os impactos nocivos desse quadro, que é sempre visto como um quadro com impactos futuros. É aquela velha conversa: ‘não percebemos os efeitos porque de alguma maneira eles não estão batendo em nossa porta’... e não há nada que obrigue pessoas e empresas mudarem essa mentalidade.

Qual o papel do jornalismo nisso tudo?
- Acredito que, sem fugir à missão original de informar melhor, o jornalismo deve ter a função de acelerar esse processo de mudança. A gente está falando de agendar melhor esse tema, informar, sensibilizar...

Trazendo a discussão para o cotidiano das editoras da revista Plurale e do caderno Razão Social/O Globo, presentes à mesa, Voltolini ressaltou que existem hoje organizações que cobram dos jornalistas mais espaço na imprensa e, então, se questiona: ‘espaço para quem, para qual tipo de notícia?’

- Quando se discute mais espaço para os temas ambientais há inúmeras pautas possíveis. São pessoas pedindo que os jornais sejam mais ativos e atuem no sentido de prevenir, empresas que nos procuram a fim de mostrar que têm projetos legais para mudar seu modelo de produção... então temos sofrido pressões de consumidores, leitores e organizações da sociedade que nos cobram espaço para ‘notícias boas’. Mas nós não temos que dar notícias boas. Temos que falar da realidade, daquilo que está acontecendo. 

Voltolini concluiu chamando atenção para o fato de haver hoje uma confusão entre jornalismo e redes sociais:
-  É importante dizer que jornalismo é feito por jornalistas. Redes sociais espalham notícias e opiniões, e assim, a cada dez segundos surge um novo especialista... Devemos ter muito cuidado com teses de sustentabilidade. O que é verdade hoje pode não ser depois de amanhã. Sustentabilidade é um alvo móvel’. 


Mídias sociais e Sustentabilidade foi tema da oficina moderada por Alan Dubner, diretor de marketing e CEO da Cybermind Comunicação Interativa. Dubner apresentou sites com iniciativas de ativismo na área ambiental e exibiu o documentário The History of the stuffs, curta-metragem que explica didaticamente os elementos do sistema de produção e a mentalidade consumista americana.  

A escritora e documentarista Annie Leonard viajou pelo mundo durante dez anos e descobriu "de onde vêm, para onde vão e o que acontece com as coisas que compramos quando nos desfazemos delas". Annie, que é norte-americana, chegou as seguintes conclusões:
- 99% das coisas que cultivamos, processamos, tranformamos e percorrem o sistema são lixo em menos de seis meses;
-  A obsolescência planejada e a obsolescência percepetiva são estratégias desse sitema, o que torna os EUA, com extensão territorial de 5% do planeta, um país que explorador de recursos de área cinco vezes maior que a sua.

Para definir ‘como as coisas andam’ nas mídias sociais, Dubner usou o conceito de netweaving, que num sentido amplo é a aptidão dos que articulam, animam e conquistam seguidores nas redes sociais. ‘Netweaving é algo como o comportamento das cegonhas que voando em bando, mudam de rumo quando uma delas voa em uma determinada direção’, explicou Dubner. Ele dirigiu uma desconcertante dinâmica de ‘quebra gelo’ em que os participantes escolhiam um dos colegas para apresentar, sem nunca terem se conhecido. Foi preciso muita imaginação para inventar uma identidade falsa para a pessoa na sua frente... Em seguida, cada um falava de si. 

Ao final da oficina, os participantes projetaram o site Jornalismo Ambiental que já está em atividade, com diversos conteúdos sobre o IV Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental.

Oficina de Mídias Sociais


Que venha o 5º CBJA repleto de boas novidades, com muito trabalho na Rio+20, que acontecerá entre os dia 4 e 6 de junho de 2012.

29 novembro 2011

Zona Sul Legal é bem recebida pelos moradores*

Coordenadoria de Justiça Terapêutica participa da Operação que retira moradores de rua de Copacabana, Ipanema e Leblon. Empresários de turismo afirmam que ela acontece num momento de "elevação da auto-estima dos cariocas".
Foto: O Globo
Há cerca de um mês os mendigos que viviam perambulando nas ruas de Copacabana, Ipanema e Leblon sumiram. A maioria dos moradores destes bairros aprovou a ação conjunta do poder municipal e estadual denominada de operação “Zona Sul Legal” que os retirou das ruas e praias durante a madrugada. Os moradeores de rua circulavam e dormiam livremente debaixo das marquises e nas areias mas seu direito de ir e vir, agora, restringe-se ao limites do abrigo público para onde foram encaminhados. Mas até quando eles ficarão por lá?
 

Na primeira edição do telejornal RJ TV, empresários do setor de turismo comemoraram  a “elevação da auto-estima dos cariocas” e relacionaram este sentimento  à conquista  do direito de sediar os Jogos Pan-Americanos de 2007.
 

Contaminados pelo ufanismo que se agigantou com a escolha do Rio como candidata à sede das Olimpíadas de 2012, até o Prefeito do Rio e a Governadora do Estado se uniram.  Na mesma edição do telejornal ficamos sabendo que a Coordenadoria de Justiça Terapêutica também está engajada na operação Zona Sul Legal. Os promotores públicos traçaram estratégias para um acompanhamento terapêutico dos moradores de rua viciados em drogas e “inalantes” como cola de sapateiro e tíner (solvente de tinta). 

Continuar encaminhando batalhões de indigentes para abrigos é perpetuar um erro que se repete há décadas. Do ponto de vista dos sem-teto, a rua é o “melhor lugar” para se viver. É ali que eles inventam expedientes para seguirem vivendo. Dar ao indigente ou ao menor sem esperança apenas um número de identidade não basta. Para que os cariocas elevem de fato a sua auto-estima, a sociedade deve promover uma efetiva política de inclusão. 


  

(*) Artigo publicado na página de Opinião do jornal O Dia, em 25 de julho de 2003.



05 julho 2011

Abuso de vitaminas na academia


A vontade de frequentadores de academia de ginástica em ver o resultado de horas de malhação nos aparelhos traduzirem-se em músculos, leva alguns deles ao uso e abuso dos suplementos vitamínicos. Tanto para atletas de alto rendimento quanto malhadores comuns, o melhor seria uma dieta balanceada; mas nem sempre isso é possível para os frequentadores de academia com uma rotina intensa de trabalho. 

Atleta de academia sem pretensões a fisiculturista, o jovem estudante de História Patrick Corrêa utilizou hipercalóricos por sua própria conta e risco antes de resolver consultar uma nutricionista. Ela, então, o desaconselhou a usar estes suplementos compostos proteínas, aminoácidos, carboidratos de alto índice glicêmico, vitaminas e minerais. Com este orientação, Patrick passou a repor o gasto calórico dispendido nos exercícios com ingestão de alimentos como leites achocolatados à base de soja.

A fisioterapeuta Simone Machado faz natação duas vezes por semana e vai à academia para manter-se em forma. Ela consultou seu professor de educação física , que estuda Nutrição, sobre que tipo de dieta deveria adotar. Sondou, inclusive, a possibilidade de fazer uso das vitaminas. Baseado no perfil de Simone, Leandro de Carvalho recomendou refeições de três em três horas. Embora o ideal seja seguir uma dieta personalizada por uma nutricionista, barra de cereal, iogurte e frutas são exemplos de ingestões intermediárias, que podem ser feitas entre as três principais refeições, para repor o gasto energético dispendido nas academias. 

Uma portaria do Ministério da Saúde faz uma disinção entre os Recursos Ergogênicos, aqueles especialmente formulados e elaborados para praticantes de atividade física, e os Suplementos Vitamínicos e/ou Minerais, alimentos que servem para completar com nutrientes a dieta diária de uma pessoa, desde que não ultrapassem as 100% da Ingestão Diária Recomendada (acima dessa dosagem são considerados medicamentos).


Essa distinção, ratificada pelo Conselho Regional de Nutrição, é o critério orientador dos nutricionistas na hora de indicar os suplementos, apenas adotado como uma estratégia alimentar para os atletas. O professor Leandro comenta que os “atletas do dia-a-dia” buscam esses recursos para ter maior disposição, energia e capacitação para malhar. Mas ele ressalta que os malhadores não devem ser confundidos com os atletas de alto rendimento que podem chegar a ter um gasto energético de quinze mil calorias, como o nadador olímpico Michael Phelps. Auqeles não se contentam apenas com os benefícios cárdio-vasculares que os exercícios aeróbicos proporcionam e querem modelar seu corpo: “Eles buscam um crescimento rápido da massa muscular, sem o tempo necessário para isso e nem sempre respeitando os limites dos seus corpos”. 

Alguns suplementos protéicos como a albumina (proteína contida na clara do ovo), a creatina, a caseína, o Whey Protein e o aminoácido BCAA, são consumidos por frequentadores de academia sem nenhuma recomendação ou orientação médica.  Leandro comenta que o rim é afetado quando se consome proteínas acima do limite. Mesmo elas sendo o principal elemento para a formação da massa muscular, não devem ultrapassar 15 % do valor energético total diário consumido pelo organismo. Por ignorar essas regras, “algumas pessoas tomam BCAA puro, além do necessário”, afirma Leandro.  Essa substância, composta por uma cadeia ramificada de aminoácidos conhecidos como isoleucina, leucina e valina, está presente numa proporção correta no Whey Protein. Segundo os fabricantes do produto, estes aminoácidos são “essenciais para a formação da fibra”. No entanto, estudos demostraram que altas doses de BCAA podem afetar negativamente o rendimento por reduzirem a absorção de água, além de causar distúrbios gastrintestinais e aumentar a produção de amônia.

Antigamente, "ter fibra" era qualidade encontrada naqueles que perseveram na vida ou num determinado trabalho. Hoje, alguns buscam um atalho mais fácil e recorrem a substâncias contidas numa cápsula ou num pó, misturado ao leite... 


(*) Matéria publicada no jornal Terceiro Tempo (Aposentado e Servidor Público), RJ, 16 a 30 de junho de 2011, nº 456.

27 novembro 2010

Quando a impunidade é amiga da violencia*

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A larga pretensão crítica de Tropa de Elite 2 em atingir as diversas mazelas atuais da segurança pública no Estado do Rio pode colocar em cheque o entendimento do filme pelas platéias de outros estados do país. Mas o risco faz parte do processo. Realizar um filme de ficção com “possíveis coincidências com a realidade” é diferente de fazer História. Ao assistirem ao filme, alguns cariocas vítimas da violência identificarão no meio dos personagens os seus algozes, suas ramificações tentaculares, seus esquemas de opressão e corrupção, tudo isso ali recriado e exposto de modo junto e misturado.
Os bandidos, os políticos e policiais corruptos que o diretor José Padilha põe em cena, dominam territórios marginalizados e transformados em currais eleitorais, em detrimento de toda uma população, vítima da falta de segurança, que sofre situações traumáticas e, no extremo, perde a própria vida. Tal fato leva essas pessoas ao medo, ao silenciamento e à alienação. No fundo, as questões apresentadas por Tropa de Elite 2 - O inimigo agora é outro constituem o sintoma local de chagas nacionais: a apropriação e o exercício indevido do poder do Estado; o patrimonialismo e a cooptação pelo medo ou por interesse pessoal.
Não há neste filme as imagens dramáticas e impactantes do documentário Ônibus 174, do mesmo diretor, que relata o momento de revolta de um morador de rua vitimado pela miséria e drogas. O sequestro que transformou o Jardim Botânico (RJ) numa praça de guerra – policiais do Batalhão de Operações Especiais mataram o sequestrador (“Missão dada é missão cumprida”, diz o tenente-coronel Nascimento) mas a operação resultou numa vítima inocente (“Tropa de Elite, pega um pega geral!”) – teve transmissão ao vivo pela TV e deu visibilidade à insegurança e a uma certa violência que começa na periferia da cidade e atinge toda a população.
Dez anos depois dos fatos reais de Ônibus 174, o herói Nascimento retorna, não para combater o narcotráfico mas a “banda podre” que continua dominando a coorporação. Na falta de um substituto a sua altura, só ele pode enfrentar esse desafio. O personagem reúne em sua composição a vontade de pessoas que pensam essas questões dentro da própria Polícia Militar, ou de seus antigos quadros; nas universidades; ONGs; além de “uns sete ou oito políticos ficha limpa”, como diz o coronel Nascimento, a certa altura.
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O possível substituto de Nascimento, Matias (que obtém êxito numa rebelião de presídio ao “matar o bandido para salvar o refém”, ao contrário do que ocorreu no sequestro de 174), representa a “banda limpa”, enquanto o caricato Azevedo, que também é um caveira (oriundo da “tropa de elite” do BOPE) pertence à banda podre da corporação. Associado ao vilão Rocha, chefe da milícia, Azevedo não consegue emergir das poças do sangue derramado nos territórios que eram dos traficantes. Se, na primeira versão, Matias denunciava os viciados como responsáveis pela perpetuação da violência do tráfico ao demandarem o produto de um negócio ilícito, agora ele trava um novo combate, contra um inimigointerno, fazendo de tudo para manter-se íntegro e honrar a farda. 

Na cena em que o Nascimento espanca o personagem do político e ex-secretário de segurança corrupto, o espectador demora um pouco a decidir se aplaude ou não. Enquanto o coronel soca o rosto dele - fazendo valer uma justiça idealizada e desejada por muitos contra crimes que o sistema normalmente não pune -, um ou outro na platéia começa a aplaudir, primeiro timidamente. Em seguida são muitos os que aplaudem, numa espécie de catarse coletiva. A demora pode ser atribuída à dúvida diante de um desejo de vingança reprimido ou, talvez, pela inverossimilidade da ficção, confrontada com a experiência vivida.
Será que os espectadores desse filme que denuncia a impunidade que o sistema perpetua, votaram em políticos que compram votos e/ou são apoiados pelos ditos milicianos? Será que o coronel vai se candidatar nas próximas eleições? Ou terá um fim parecido ao do “recalcitrante” Matias, defensor praticamente solitário e obstinado das "coisas do povo" (res publica), daquilo que não é propriedade privada e deve ser mantida por (e para) muitos? 
Assistam na tela grande a passagem dessa tropa. Não se assustem tanto com as balas e seu volume de som, no dolby stereo. Se preciso, fechem ou virem os olhos para o lado; afinal se a realidade é insuportável, a vontade é que tudo, na tela, seja ficção. Mas, infelizmente, dentro e fora da sala de cinema, a história ou enredo coincidem às vezes com acontecimentos do nosso dia-a-dia. Isso explica a escolha do nome dos bairros no filme, a saber, Tanque, um que realmente existe e; "Rio das Rochas”, dominado pelo PM e chefe miliciano Rocha, inspirado no bairro Rio das Pedras; ambos localizados na zona oeste carioca.
Após a sessão, vale a pena ficar atento ao que se passa na realidade; algo inevitável aos que vivem nessa cidade, mesmo quando a violência beira o insuportável e  desejamos à fuga... Mas, é justamente no momento em que nossa esperança sofre abalos que devemos  perseverar para enxergarmos, no fim do túnel, alguém que chega com a coragem, a sede transformadora e a integridade moral de um coronel Nascimento. 
Acreditem nele como  um homem, e não apenas como o héroi idealizado, único e solitário, capaz de nos  proteger desse inferno de violência. Até porque não parece haver outra saída. Que uma tropa de elite verdadeira e imaculada, lado a lado com políticas sociais, façam o seu trabalho, separando o joio do trigo  para  que a paz  e a justiça reinem brevemente em nosso Estado.